A queda

E lá ia eu pela calçada da Praia de Ipanema, passo acelerado, cronômetro disparado, completamente concentrado no objetivo, ou seja, ir até o final do Leblon e retornar ao Posto 4, em Copa, uma jornada com mais de dez quilômetros. A primeira parte, até o Arpoador, correu (sem trocadilhos) tranquila. Animado, dei uma meia trava, alonguei as pernas e iniciei a segunda fase.

Pois sim! No meio do caminho tinha uma pedra. Portuguesa, é claro. Na altura do antigo Barril 1800 pisei em algo solto e imediatamente perdi o equilíbrio. Era uma pedrinha do calçamento que ficou girando embaixo do tênis. Desabei para a frente, como um saco de batatas. Mas, por sorte, não enfiei a cara no chão. Tirando o baita susto, sai com apenas uns leves arranhões nos joelhos e cotovelos. Um tombo “leve”, digamos assim.

É claro que perdi o ritmo e o foco do treino. Depois de confirmar que não tinha nada fora do lugar, dei meia volta e terminei o exercício com os habituais seis quilômetros de duração. Mas não há de ser nada e qualquer hora dessas repito a dose (a distância, não o tombo…).

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Casos como esse estamos cansados de assistir (ou participar), em qualquer cidade deste enorme país. As causas são sempre as mesmas, calçadas em péssimo estado de conservação — geralmente pelo descaso do proprietário do imóvel, obra mal acabada de uma concessionária qualquer ou imprudência do próprio pedestre, andando onde não devia (ou sem prestar atenção).

Pois é, parece uma fatalidade, não é mesmo? Não, não mesmo!

Um tombo na calçada é — ou deveria ser — tratado como um acidente de trânsito, de acordo com o interessante artigo “Tombos na calçada são acidentes de trânsito não computados”, escrito pela jornalista Natália Garcia. Usando dados do IPEA — Instituto de Pesquisa Econômica Aplicado e do consultor da CET-SP, Phiilip Anthony Gold, ficamos sabendo que “a cidade de São Paulo paga mais caro pelos acidentes sofridos por pedestres nas calçadas (R$ 2 bilhões) do que por acidentes que envolvam veículos motorizados (R$ 1,5 bilhões).”

“Não levar pedestres a sério como parte da mobilidade de uma cidade além de ser prejudicial para uma parte importante das pessoas que se deslocam todo dia (a todas, a rigor, pois até um motorista se torna pedestre no momento em que estaciona o veículo) custa caro para a cidade”, afirma a Natália, lamentando que renomados órgãos de trânsito internacionais só considerem a segurança dos pedestres do ponto de vista dos veículos em circulação.

Cair ou não cair, não é nem a questão, diria Shakespeare, se hoje vivesse nas esburacadas cidades brasileiras. Mudar a maneira de ver esses tombos e tipifica-los como acidentes de trânsito, colocando responsabilidades, seria um bom começo.

A legislação atual da grande maioria dos municípios brasileiros deixa a cargo do proprietário do imóvel a construção e manutenção das calçadas, mas estamos carecas de saber que isso não é suficiente.

Falta padronização, acesso para deficientes, sinalizações horizontal e vertical e, principalmente e infelizmente, muita fiscalização. É inadmissível circular em uma calçada tomada por lixo e entulhos, ocupada por automóveis ou instalações urbanas completamente irregulares, perigosas e na maioria das vezes, inúteis.

É sempre bom ter em mente que somos todos, antes de qualquer coisa, pedestres. Nossas cidades nunca serão amigáveis se suas calçadas forem inseguras. Aliás, já que o poder público se preocupa em manter ruas, avenidas e rodovias em condições perfeitas para o trânsito de veículos automotores, tem a obrigação de cuidar dos caminhos dos cidadãos, as nossas calçadas.

Afinal, as cidades são para as pessoas. Sempre.