Náufrago

Foto: Carlos Emerson Junior

“Quando perguntam de onde tenho ressurgido
respondo:
– Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios.”
(Mario Quintana)

Apesar de tudo, nunca perdeu a esperança de escapar da tempestade. O bote, muito avariado, lutava para vencer as ondas e correntes. A noite tenebrosa, tomada pela chuva e vento, tornava a navegação quase impossível. Sabia muito bem que o naufrágio era inevitável: o mar revolto e um buraco no casco permitiam a entrada cada vez maior de água a bordo. A qualquer momento ia afundar.

Em completo desespero, desistiu dos remos e agarrou o comando do leme com força. Tinha certeza que o litoral devia estar por perto, sua única chance era tentar chegar em terra. Enxugou o rosto com uma toalha, virou a proa para bombordo e se deixou levar, na direção das ondas. Estava absolutamente sozinho.

O mar, furioso com a sua audácia, envolveu a pequena embarcação. As ondas arrebentaram de todos os lados. De repente todo o movimento cessou e, com um estrondo, ele foi arremessado para fora do bote. Bateu com o rosto no chão e se assustou quando percebeu que estava com a cara enfiada na areia. Não, não era um sonho, fora jogado em uma praia. Imediatamente pensou: se não estou morto, certamente acabei de renascer.

Foto: Cejunior

Naveguemos

Wainessa, Amigo do Mar, Marinheiro Popeye, Devaneios, Vila do Conde Mestre Fausto, Deus é Luz, Como Deus Quiser, Argonauta, Dom Cidi, Estrela da Manhã, Dina e Paula, Dona Dalila, Filha de Gaia, Gaivota da Urca, Mestre João Coração de Mãe, Atrevido, enfim, quase todas as embarcações tem um nome.

Antigamente, quando navegar era uma completa aventura, dependendo do vento e das marés, era muito comum apelar para os santos de todas as religiões pedindo proteção. Também é tradição usar um nome de mulher, embora ninguém saiba bem porque. De qualquer maneira, com ou sem nome, barcos são lúdicos, pelo menos para quem senta na beira da baia e fica observando seu movimento para cá e para lá, ao sabor das correntes.

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De repente descobri que o mar da Baia da Guanabara é diferente do mar aberto do oceano. Se as ondas por aqui são suaves, os barcos estão por toda a parte. Grandes, pequenos, feios, bonitos, modernos, velhos, veleiros, traineiras, botes, canoas, iates, o que o freguês imaginar. E dos atracadouros do Iate Clube, do Quadrado da Urca, do Forte São João e até mesmo o pequeno cais em frente à rua onde moro, saem ou chegam os barcos que cortam essas águas antigas levando gente para outras paragens.

Tudo bem, não há mais terras para descobrir. Mas ainda há peixes para pescar, lugares para conhecer, ondas para enfrentar, nevoeiros para desbravar. Aos barcos, rumo ao horizonte navegar. “Marujos, levantar ancora, içar velas, soltar as amarras!”

bravamar

filhadegaia

mestrejoaocoracaodemae

atrevido

gaivotadaurca

Fotos: Carlos Emerson Jr.