Atiradores

Foto: Carlos Emerson Jr.

De longe, muito longe mesmo, com toda a maldita neve na encosta, conseguiu enxergar: tinha um tedesco escondido no meio de uma moita, com um fuzil de mira telescópica. Não havia como errar, a farda verde e o capacete esquisito eram inconfundíveis. O problema agora era outro, qualquer movimento brusco que fizesse, ia levar um tiro no meio dos olhos, no mínimo. Esses atiradores alemães não perdoavam. Só tinha uma chance, meio louca, com tudo para não funcionar, mas não ia entregar sua alma nessa moleza não. Respirou fundo e, tentando se mexer o mínimo possível, puxou a bazuca das mãos do Adriano, coitado, que já havia levado uma bala do filho da puta lá da moita. Como pensava, a arma estava pronta para atirar, não fosse o Adriano seu operador. Com muito cuidado apoiou a arma na beira do fox hole, apontou para a maldita moita, apoiou bem firme o corpo no chão e apertou o gatilho. O disparo empurrou seu corpo para trás, o alemão percebeu, mirou com seu fuzil e nem deu tempo para pensar, a carga explodiu em cheio na moita, reduzindo tudo a pó, carne queimada e ossos quebrados. Respirou profundamente, sentindo-se vivo.

Acordou suando em bicas, apavorado! Caramba, tinha dormido no abrigo! Ainda bem que o sargento não viu, não tinha ninguém perto. Ninguém não, no buraco logo à frente, no meio da neve, dois brasileiros entocados espreitavam. Um já tinha ido, ganhou um balaço bem no meio dos olhos. Mas o outro estava quieto, imóvel, como se estivesse morto. Ou congelado. Que frio, caramba. Essa guerra nunca vai terminar e vamos acabar todos enterrados nesses buracos na neve. Alemães, italianos, americanos, brasileiros, ingleses, o diabo. É, até ele vai congelar no fox hole. Com o canto do olho percebeu quando um tubo verde-escuro surgiu no chão, à sua frente: caramba, é uma bazuca, o filho da puta tem uma bazuca! Automaticamente encostou o rosto na mira telescópica do fuzil, pressionou o gatilho mas só viu, por um décimo de segundo, o projétil ser expelido em sua direção. Não deu tempo sequer de falar “fudeu, morri”.

Acordou suando em bicas, tremendo apavorado. Por alguns segundos, desorientado, não sabia se estava em um fox hole na Itália ou em sua própria cama, no Rio. Foi um pesadelo, claro, mas de onde viera essa história? Olhou para sua mulher, dormindo pesadamente ao seu lado. Ela tinha razão, precisava relaxar, ter uma vida mais saudável, ganhar na loteria, não sabia. O problema é que não havia conexão alguma entre o sonho e seus problemas. Não, não sabia mesmo o que fazer. Aliás, não tinha a menor ideia do que estava fazendo na Itália. De qualquer modo, tinha um tedesco na moita logo à frente. Isso era fácil, bastava um tiro da bazuca para liberar o caminho. Silenciosamente, carregou a arma e esticou o pescoço para situar melhor o alvo. Só ouviu o companheiro gritar: Adriano, se abaixa! Sentiu uma martelada na cabeça e imediatamente, o mundo se apagou.

Acordou suando em bicas, trêmulo, apavorado, taquicárdico. Desta vez chamou a mulher, quase chorando, pedindo ajuda. Não ia dormir de novo. Aliás, se pudesse, não dormia nunca mais. Tinha medo. Olhou para o escuro do quarto e teve certeza que na próxima, era ele quem ia embora.

Carlos Emerson Jr.
Dezembro de 2018

Sombras de Hiroshima

Autor desconhecido

Foi até a cozinha, abriu a geladeira e bebeu um copo d’água. Coçou a cabeça, um hábito antigo, lembrou que os cabelos escasseavam e suspirou pela enésima vez, estava ficando careca… Voltou para a sala, sentou na poltrona, pegou um antigo livro sobre filatelia do seu pai e folheando as páginas deu com um envelope já amarelado, enviado por um certo Tenente Seiji, de Nagoia, no Japão, carimbado pelo correio brasileiro em 23 de novembro de 1950.

Curioso, tirou de dentro as duas folhas escritas à mão, com uma caligrafia quase infantil, em inglês. Se aprumou no assento e começou a ler. O oficial, depois dos cumprimentos protocolares, agradecia a série de selos do Brasil que seu pai enviara e lamenta informar que a próxima edição nipônica com a efígie do Imperador Hirohito só seria liberada após o término da ocupação aliada, no ano seguinte.

Prosseguia contando sobre sua nova missão, a reconstrução da cidade de Hiroshima, um trabalho árduo, perigoso e emocionalmente doloroso mas, sem dúvida, uma obrigação de todos, principalmente depois de todos os sofrimentos e destruição que a guerra provocou. Pelo menos, ali, estava fazendo o bem.

Por essa razão, encaminhava respeitosamente três fotografias que mostravam um efeito extraordinário, possivelmente desconhecido, provocado pela explosão da nova arma, as manchas no chão, na escada, na beira da ponte, sombras de pessoas que foram atingidas e volatizadas em cheio pelo clarão da explosão, deixando apenas suas sombras para a eternidade, suas sombras em Hiroshima.

Caramba, cadê as fotos? Pegou novamente o caderno do pai e o folheou cuidadosamente. Na última página encontrou um pequeno envelope meio amarelado, colado na folha com goma arábica ou coisa parecida. Abriu com cuidado e dentro, ao invés das três, havia apenas uma fotografia velada, com uma anotação no verso.

Reconheceu imediatamente a letra caprichada e o estilo do recado: “o Serviço de Censura roubou as fotos. Fora Dutra!” Puxa vida, mas logo a carta do Tenente Seiji? Não respeitaram nem a tragédia das bombas atômicas? Xingou mentalmente do Getúlio até o Temer e ficou imaginando a raiva do pai. Ficou pensando como o Japão, arrasado em 1945, hoje é uma potência. Já o Brasil… Ah, deixa prá lá, esse país não muda nunca.

A torre

Foto: Carlos Emerson Junior

Aquilo não podia ser normal. Desde criança, pequeno mesmo, sempre que passava pela torre onde ficava a caixa d’água, parava bem embaixo e ficava olhando para cima, para o topo, querendo adivinhar se algum dia conseguiria a subir até o alto para ver como era o mundo lá do alto.

A medida que ia crescendo, a curiosidade aumentava. Entrar na torre não era tarefa simples. Seus pais, já sabendo da esquisitice, alertaram os funcionários do condomínio para não ficarem de olho: qualquer bobeada e o menino era bem capaz de se mandar escadaria acima.

Secretamente traçava planos para “tomar de assalto” a torre da caixa d’água. Percebeu que à noite, depois que os empregados iam embora, o único impedimento era a porta de acesso ao alojamento e depósito, que ficava na sua base e dava acesso à escadaria, devidamente trancada.

Uma vez tentou: escalou o muro que cercava o condomínio (aproveitando escada de pedreiro esquecida), passou para o teto do cômodo de baixo, olhou para os lados, lembrou da avó e se benzeu, colocou o pé direito no primeiro degrau, segurou com força a lateral, tomou impulso e começou a subida. Mal chegou no terceiro degrau ouviu o grito agudo e imperial da mãe! Pulou fora, em pânico, e só não levou uns cascudos porque sua bendita avó não permitiu.

O tempo passou, a faculdade o formou, uma moça com ele se casou, para uma outra cidade se mudou, uma filha chegou . No entanto, lá longe, nas imagens esquecidas da infância, a torre continuava lá, enorme, inexpugnável, desafiando as alturas, chegando ao céu, a grande aventura proibida. Quando sua mãe faleceu, após o sepultamento e a reunião com os parentes, caminhando pelo velho condomínio onde brincara tanto, deu de cara com ela, desafiadora.

Nunca se soube o que passou pela sua cabeça. Com um pulo, subiu o muro, saltou para a base da escada e, rápido como um raio, subiu com o olhar fixo nos degraus até chegar ao topo, a parte de cima do reservatório de água. Ficou em pé e olhou em volta. Era alto, mas a paisagem, cheia de ruas e casas, era completamente diferente do que esperava encontrar, a grande mata que existiu em algum momento dos anos 80.

Sentou, acendeu um cigarro e foi tomado por uma sensação de alívio. De alguma maneira, tinha exorcizado um fantasma do passado. Um fantasma bobo, é verdade, mas sempre um fantasma. Alguns minutos depois, lembrou-se que a vida continua e resolveu descer. Uma pena que não era uma criança. Teria sido muito mais divertido.

Meu pai

“O cérebro é mais vasto do que o céu,
pois se os pomos lado a lado,
aquele o outro contém
fácil – e a você também.”
(Emily Dickinson)

Sai do bazar e “atropelei” um senhor que vinha cabisbaixo pela calçada, rente às lojas. Ninguém caiu, ninguém se machucou. Perguntei se estava tudo bem, se precisava de alguma ajuda. Ele se recompôs, pediu desculpas pela distração, me olhou profundamente nos olhos, deu um até logo e seguiu seu caminho. Não consegui sair dali, completamente chocado: por algum motivo fiquei com a sensação de que quase tinha derrubado no chão o meu falecido pai.

Olhei para o lado esquerdo da rua e lá longe ia ele, devagar, com as mãos no bolso e um cigarro no canto da boca. Meu Deus, um cigarro na boca? Quem ainda fazia isso? Não era possível, Papai faleceu há cinquenta e três anos e hoje ele teria mais de cem anos de idade. E como assim, ele não me reconheceu? Se bem que não tem como, afinal, eu tinha apenas 13 anos. O que ele viu, a pessoa que trombou com ele, foi um senhor meio calvo, com os cabelos e barba brancos, óculos com lentes grossas, rosto cansado, com quase 70 anos. Ele viu um velho.

Velho ou não, eu ainda corria diariamente. Disparei pelo meio da rua atrás dele, desviando de carros e pedestres que me olhavam como se fosse um maluco. Minha cabeça não parava de pensar. Se ele morreu, não envelheceu, é óbvio. Bobagem, isso só pode ser um tipo de alucinação. Projetar em alguém a última imagem que minha memória tem do meu pai. Mas por quê agora, tanto tempo depois?

Cruzei a última rua, parei para retomar o fôlego e baixar um pouco os batimentos cardíacos e lentamente me aproximei dele, por trás. Cuidadosamente, para não assustar e mantendo uma distância segura – coisa de carioca nestes tempos violentos – dei um bom dia e balbuciei alguma coisa sobre ter achado que ele era uma pessoa que eu não via há muito tempo. Ele parou, virou, me olhou e respondeu que estava tudo bem mas infelizmente, nunca tinha me visto na vida.

Eu sei, a memória prega peças, ainda mais quando envelhecemos. Olhando com calma, notei claramente que sim, era muito parecido, mas talvez não fosse meu pai. Seus olhos eram verdes ou azuis? Ele parecia mais alto. Mais magro, com certeza e estava absurdamente vivo. A razão tomou de volta o seu lugar. Nos despedimos e cada um foi para seu lado. Não tive coragem de perguntar sequer o seu nome.

Quando cheguei em casa, desabei: abracei minha mulher e chorei em seu colo como se o mundo fosse acabar amanhã. Como um menino de treze anos de idade que perdeu o seu pai.

Palavras desconexas (ou não)

A internet caiu. Checou o pequeno ícone da rede, na barra de ferramentas, onde um “x” vermelho confirmava a ausência de sinal. Suspirou profundamente, pegou um cigarro e se levantou para fumar na janela. Nesse momento olhou o monitor do notebook e ficou pasmo ao ver o que estava digitando no editor de textos.

Frases e palavras desconexas, sequências alfanuméricas sem o menor sentido, nenhuma paginação, um caos completo! De novo, ficou chocado. Não se lembrava de ter escrito nada daquilo e pior, sabia muito bem que tinha sentado no computador simplesmente para colocar um mero post no blog, coisa boba mesmo.

Muito estranho. Teria cochilado? Seria aquilo uma mensagem em código, um pedido de socorro em um lapso de insanidade, para ele mesmo? Ainda bem que não acreditava em sobrenatural, senão já ia pensar um monte de bobagens. No entanto, era impossível não notar um grupo de números repetidos em vários pontos daquela algaravia:

01110011 01101111 01101101 01101111 01110011 00100000 01100101 01110011 01100011 01110010 01100001 01110110 01101111 01110011 .

O que seria aquilo? Teria algum significado? E por que havia escrito? Tentou salvar o texto mas percebeu que o notebook havia congelado. Foi até a mesinha da sala, pegou o celular e tirou algumas fotos. Reiniciou o laptop e, como esperava, perdeu o trabalho. Não tinha importância. Abriu novamente o editor de texto e digitou, cuidadosamente, todo o conteúdo que fotografara no celular.

Teclou enter e publicou, não só no blog mas como em todas as redes sociais que participava. Logo, mas logo mesmo, alguém indagou porque usara um código binário para destacar sua mensagem, quando poderia muito bem ter escrito em português: “somos escravos”. Então era isso! Sim, somos escravos, nascemos para isso, estava careca de saber. A questão ainda era, porque fez esse texto?

Ficou ali sentado, olhando a tela, pensando no que viria a seguir.

Nova Friburgo, 2009
Revisto em julho/2017