A morte da bezerra

Foto: Falenki

“A bezerra morreu.
Santinha, moça bonita e muito dada,
informa, amuada:
– põe na conta do Abreu.”

O “Seu” Biu Clintom, inconformado, furioso, esquecendo-se que o burro acredita em tudo o que lhe dizem, passou a mão na peixeira e jurou vingança. Aquilo não ia ficar assim, ia pegar o Abreu. Dona Excelsa, sábia senhora, conhecendo bem o marido que tinha, cheia de dedos tentou explicar que leite de vaca não mata bezerro e Dona Santinha, aquela mesma que criou fama e deitou na cama, não sabia o que estava falando.

Lembrou que o Padre Tadeu sempre dizia que para bom entendedor, meia palavra basta e ficou sem entender nada. Afinal, a bezerra morreu do quê? Morte morrida ou morte matada? Gritou lá para dentro da casa, como que pedindo socorro para Dona Excelsa. Não há rosas sem espinhos, respondeu a esposa, a bezerra se foi de velhice, doença, tédio, era a hora dela, homem de Deus.

Sim, mas e o Abreu, o que é que o Abreu tem a ver com tudo isso? Indagou, ainda cismado. A patroa suspirou, tirou o café do fogão, encheu sua xícara, pensou e disse: você sabe muito bem que boi velho gosta de erva tenra, não é mesmo? Então, bastou ver a Dona Santinha aí do lado que logo se engraçou. Ela, de muito riso e pouco siso, se animou e mais não digo porque mulher honrada não tem ouvidos e nem fala dos outros.

Dona Excelsa fulminou: Biu, meu velho, não te metas no que não te diz respeito. Vê se para de ficar pensando na morte da bezerra e vem cá pra dentro, vou preparar a janta. Só não fica animado porque quando pobre come frango, um dos dois está doente. Vai de sopa de legumes mesmo e não reclama!

Carlos Emerson Jr. (2017)

Um contador de causos

Rui Barbosa Egual

Tenho muitos parentes em Araguari, da minha família materna. Tia Delermanda (não me lembro de ter visto esse nome outras vezes) que era nessa encarnação irmã da minha mãe, teve muitos filhos.

Certo dia aproveitando as férias escolares, estava na casa dessa tia querida jogando ora caxeta, ora damas, com meu Tio Manelico seu marido, um perfeito e bem sucedido munheca de samambaia. Ele era muito pão duro, e acredito que no começo da vida tinha que ser assim pela quantidade de bocas para sustentar. Mas depois tomou gosto e virou modo de vida mesmo.

O apelido veio de uma divertida abreviação do nome de batismo, Manoel Henrique. Ficou Tio Manelico, pedreiro da companhia ferroviária e dono de um monte de casinhas de aluguel, construídas ou reformadas por ele mesmo. Foi uma vida dedicada a acumular bens e grana, sem nunca se dar ao luxo de entrar numa venda, bar, quitanda ou pensão para tomar uma cachaça ou comer um pastel com garapa.

Mas era um sujeito que ao tempo que tinha uma aparência rústica e brutalizada, era dono de uma amorosidade invejável. Quase sem estudos, mas uma águia nas catiras (nome dado ao comércio informal de troca de bens e serviços) e dono de um senso de humor incrível.

Nesse dia, durante o jogo de damas, Tia Delermanda, que era muito magrinha e tinha o hábito de cheirar tabaco, chegou na cozinha onde estavamos jogando, carregando uma lata enorme cheia de lavagem. Acho que pelo peso e por estar naquele momento com o nariz meio entupido por conta do pó de fumo, denunciado pelo cheiro do rapé que ela tinha acabado de torrar no fogão a lenha e que tomava conta da casa, pediu:

– Manelico leve essa lavagem pra mim lá no chiqueiro.

Tendo como resposta imediata, para não perder a concentração do jogo levado muito a sério por nós:

– Come aqui mesmo Delermanda, ninguém repara não.

Tio Manelico tomou um belo de um esculacho pela ousadia e eu por rir demais. Acabei perdendo o jogo por falta de concentração, acho que foi tática do meu Tio.

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Como definir um escritor que nasceu em Uberaba, lá nas Minas Gerais, foi morar em Cuiabá, no meio do cerrado de Mato Grosso e ainda por cima se chama Rui Barbosa? Pois é… Sou suspeito até para elogiar seu trabalho, já que temos laços profundos de amizade e familia. Mas, como editor deste blog, jamais poderia deixar de passar a oportunidade de “emprestar” um “causo” de um de seus ótimos contos (“Zé Galinha). Aliás, espero muito vê-los reunidos em um livro o mais breve possível.

Ah sim, prá turma da cidade que não sabe o que é uma “lavagem”, fica aí uma sucinta explicação do Ruy: “o leitão tem importância vital, além de produzir esterco, carne e banha. É alimentado com as sobras das comidas, frutas e verduras. Engorda com as sobras, a famosa lavagem, acrescida de milho e farelo de arroz. Essa conhecida lavagem não tem lá um aroma agradável, a bem da verdade, fede que é uma beleza”.