Vírus Filho da Puta!

Shuterstock

Os números são terríveis: no mundo são 25.251.334 casos de Covid-19 e 846.841 mortes. O Brasil contribuiu até agora com 3.908.272 casos (15,47%) e 121.381 fatalidades (14,33%). Nosso desgovernado Estado do Rio tem 223.631 casos e 16.065 óbitos e Nova Friburgo, com 2.409 casos e 100 mortes, aparece lá embaixo mas com números preocupantes para uma cidade que não chega a ter 200 mil habitantes.

Enquanto isso assistimos, estupefatos, o afastamento de mais um governador, a prisão de dezenas de autoridades, políticos e empresários envolvidos em um revoltante e nojento caso de desvio de dinheiro da saúde, superfaturamento de hospitais, formação de quadrilhas, recebimento de propinas e diabo a quatro. Já são sete os chefes do governo fluminense presos, processados ou investigados e afastados por, digamos gentilmente, mal feitos.

Quem elegeu essa gentinha? Nós, é claro, que nos acostumamos a votar no menos pior, durante anos escolhemos representantes corruptos e inúteis para as casas legislativas, fechamos os olhos para os desmandos de pseudo autoridades desde que tenhamos carnaval, praia e futebol, não necessariamente nessa ordem; delegamos poderes da época do império a nulidades que não conseguem assinar o nome, não entendem o que ouvem e não sabem falar. Uma lástima!

Foto: Wilton Junior/ Estadão

A visão dantesca das fotos e vídeos das praias cariocas no último final de semana é de provocar engulhos. Estavam comemorando o fim da pandemia? A cura do vírus? O que esse povo tem na cabeça? Em quem essa gente confia? Acreditam mesmo nos irresponsáveis pela saúde pública? Na mídia partidária? No coelhinho da Páscoa? Ou seria no Papai Noel?

Dizem que os critérios para a flexibilização são técnicos mas como precisam atender a uma senhora com o sonoro nome de “Reeleição”, aceitam qualquer barbaridade que um aspone ou empresário buzine no ouvido da “Vossa Excelencia” da vez. Até hoje não entendo porque as eleições deste ano foram mantidas. Um desserviço para a população, quando bastava prorrogar os mandatos por uns seis meses ou até o vírus ser controlado, sei lá, usassem a criatividade!

E por falar nisso, a escolha dos prefeitos e vereadores deveria ser mais importante para o cidadão do que a do governador e até mesmo do presidente (com minúsculas, por favor). Um país continental como o nosso não pode depender de uma pequena e poderosa pseudo elite que se aboletou há anos no poder, independente de qualquer ideologia. O voto distrital seria uma boa? Talvez… Não por acaso, a turma de Brasília tem horror a essa ideia.

Desenho: Oscar Niemeyer
Vivemos um momento tão confuso que ninguém mais sabe quem manda em quem no Brasil e todo mundo, mas todo mundo mesmo é culpado por essa mixórdia, agravada pelo Coronavírus. Depois de todas as asneiras ditas e cometidas que nos levaram a uma tragédia, lembro do escritor israelense Eshkol Nevo que, em uma ótima crônica no jornal espanhol El País, afirma que “não está disposto a escutar mais ninguém dizendo que o vírus vai nos ensinar uma lição, e que vai nos fazer retornar a uma vida mais simples. O vírus é um filho da puta.”

No fundo, é isso aí mesmo: somos todos filhos da puta!

Carlos Emerson Junior (setembro/2020)

Quarentena

Foto: Reuters

“- Vocês acham que estou brincando? Pois fiquem sabendo que só vão sair do quartel quando o Alto Comando desistir da estupidez de aceitar as exigências de um grupelho de terroristas. Vamos resistir até o fim, lutar como homens pelo Brasil, mesmo que fiquemos aqui o resto da vida. Quero só ver quem acha engraçado quando eu falo de quarentena, bando de mocorongos”.

Pois é, a “quarentena” do sargento, na verdade uma prontidão com armamento de combate, barricadas, arame farpado e metralhadoras antiaéreas durante o sequestro do embaixador americano no Rio de Janeiro em 1969, durou exatamente uma semana, muitos momentos de tensão, a mobilização de toda a pequena tropa e oficialidade do Quartel General e um medo enorme quando anunciaram que a Divisão Blindada estava vindo de Deodoro para nos varrer completamente do mapa.

Passou, é claro. O embaixador foi solto e no domingo seguinte fomos desmobilizados e voltamos para casa, com a sensação que defender a pátria é muito mais complicado do que nos ensinam. Quem tinha razão, no final das contas? Enfim, essa foi a minha quarentena de uma semana, com uniforme de combate, capacete de aço, granadas ofensivas de mão e o bom, confiável mas infelizmente ultrapassado fuzil Springfield a tiracolo.

O tempo passou, escreveram uma nova Constituição, governos vieram e se foram, as eternas crises de sempre continuaram presentes e, para meu espanto, 51 anos depois, durante uma cirurgia para tirar um câncer do intestino, voltei da anestesia no meio de uma nova quarentena, desta vez sem armas, sem prazo para terminar, contra um inimigo quase invisível. Ninguém sai de casa, lojas e fábricas paradas, fronteiras e divisas fechadas.

O pior é o medo. Enquanto em 1969 meu pavor era levar um tiro ou ser cortado ao meio por uma rajada de metralhadora de um tanque Sherman hoje, na condição de “grupo de risco”, ou seja, imunocomprometido, idoso, hipertenso e tratando um câncer, não passo de um alvo certeiro e possivelmente fatal do vírus chinês que assola nosso sofrido planetinha. Que saudade dos blindados!

Resta algum futuro? Sinceramente, espero que sim, embora acredite que existe uma possibilidade que, daqui para a frente, tudo seja diferente. Para melhor ou pior não dá para saber, pelo menos, agora. A discussão sobre a validade da quarentena é estéril. Achatar a curva de atuação do vírus pode significar sua explosão mais adiante, com resultados catastróficos diante das economias já combalidas pela sua paralisação.

E qual é a saída? Bom, para a doença a solução tem que vir da comunidade científica, como uma vacina ou medicamento capaz de, pelo menos, minimizar os danos de um contágio e sua morbidade. A boa notícia é que cientistas, médicos, laboratórios e universidades de todos os países pesquisam febrilmente em busca da cura. Torço para que seja apenas uma questão de tempo.

Mas como ficaria a economia mundial? Aí é outra história e bem complicada. Tudo leva a crer que a atividade econômica mundial vai parar ou quase isso, a medida que a quarentena se expanda e perdure, o que significa uma baita recessão. Quebra de empresas, desemprego em massa, miséria. E piora muito se o vírus chinês ainda estiver dando as caras por aí.

Não é bom sequer imaginar o tamanho da desgraça, afinal o vírus chinês tem potencial para provocar uma crise planetária sem precedentes, deixando os sobreviventes em uma situação só vista em filmes de ficção científica ou de apocalipse. As medidas sanitárias até agora tomadas são as possíveis, pelo menos enquanto não se vislumbra uma cura a curto ou médio prazo.

E aí me lembro da bronca da quarentena do sargento da guarda, em um quartel do Exército nos anos 60. O que aconteceu foi muito grave e quase provocou uma ruptura sangrenta no Brasil, apesar da completa falta de informações à sociedade civil. No entanto, aquela crise vista com os olhos atuais não passou de uma, com todo respeito, quartelada e ainda bem que ficou só nisso. Acredito que hoje, com toda a overdose de informações que temos (trazendo como efeito colateral muita desinformação intencional ou não), temos a obrigação de colaborar como pudermos, nem que seja para nos manter vivos. Agir como uma sociedade civilizada e organizada é essencial.

Muita calma nessa hora, gente!