A imersão do Zé

Telefonou para o amigo, lá no Rio:

— Oi, Lisete, o Zé pode atender?

— Seu Carlos, o Dr. Zé está em São Paulo, fazendo imersão.

— Fazendo o quê, Lisete?

— Ele está em São Paulo fazendo imersão.

— Como assim, imersão? Um curso de mergulho submarino?

— Não sei não senhor, seu Carlos.

— Ele só pode ter se metido com um curso de mergulho submarino. Mas logo em São Paulo, aqui pertinho, em Macaé, está cheio de boas escolas… sei não Lisete, a mulher dele foi junto?

— Foi, seu Carlos, os dois viajaram ontem e voltam no domingo.

— Mas que raio de curso de mergulho é esse que só dura dois dias?

— Ah, sei não. O senhor quer deixar algum recado?

— Não, pode deixar, na segunda ligo de novo. Obrigado, Lisete!

— Tchau.

Coçou a cabeça foi comentar essa história esquisita com a mulher.

— Mas você está velho mesmo, meu Deus! Imersão é o nome que dão a um tipo de curso onde você fica isolado um fim de semana todo só pensando naquilo, quer dizer, no tema do curso, é claro!

— Pô, isso é uma imersão? No meu tempo chamava-se intensivão ou coisa que o valha. O que essa gente do marketing não inventa! Imersão! Cada vez mais tenho a certeza de que morro e ainda não vi tudo! Mas vem cá, fazer uma imersão de um curso de mergulho submarino na idade dele… não é uma ideia meio maluca?

— E quem falou em mergulho submarino, você bebeu? O curso é de alergia alimentar, vê lá se o Zé vai mergulhar. Acorda!!!

Achou melhor pegar o jornal e ler a seção política para relaxar. Em meia hora esgotara todo o estoque de asneiras do mês!

(2010)

O bazar

Foto: Carlos Emerson Junior

Leu o aviso no quadro-negro, parou, atravessou a rua e meio sem jeito deu uma espiada além da porta. Roupas penduradas em araras, sapatos, luvas, echarpes, cintos, mulheres para todos os lados conversando ou examinando as peças. Literalmente, um bazar de verdade, bem de frente para o mar.

Reconheceu a dona do negócio. Jovem e bonita, destacava-se das demais por uma única e simples razão, já se conheciam das caminhadas diárias. Ela sempre correndo, ele andando acelerado e invariavelmente se cumprimentando quando se cruzavam em algum ponto da rota.

“O senhor deseja alguma coisa? Um presente para sua esposa, ou filhas, quem sabe?”

A moça bonita o olhava com curiosidade. Ficou desconcertado, sorriu meio amarelo e tentou explicar que só entrara ali para ver como era o bazar, uma novidade naquele bairro onde não acontecia absolutamente quase nada.

“Vem cá, eu sou a Lara e você é o….?

“Paulo”.

“Pois é, Paulo, acho que somos vizinhos, não é mesmo?

“Sim, moro na rua de cima e, para falar a verdade, praticamente todos os dias nos cruzamos aí na orla.”

“Claro, agora lembrei de onde o conheço. Você vai treinar amanhã?

“Vou e presumo que você vai correr, não é mesmo?”

“Por que não vamos juntos? Metade do percurso a gente corre e o restante caminha até o barzinho do Forte São João. Aí a gente abre uma cerva e vamos nos conhecendo. Que tal?”

“Sete horas?”

“Sete horas, sem falta, partida aqui do bazar, ok?”

“Fechado.”

Voltou para casa se sentindo uns vinte anos mais novo. Aquele bazar realmente era mágico!

Reboco

Foto: Carlos Emerson Junior

Reboco, palavra originada do árabe “rabuq”, é aquela argamassa que usamos para alisar paredes, preparando-a para receber cal ou pintura. Aliás, no caso de paredes com tijolos ou blocos, temos que percorrer quatro etapas: chapisco, emboço, reboco e a massa corrida. Mas isso é assunto para blog de construção civil e está aqui só para ilustrar o caso que aconteceu em um Dia dos Namorados.

O meio da noite se aproximava, a cachorra dormia placidamente enquanto o casal lutava para assistir na televisão um filme romântico ruim de doer, sem despencar no sofá, completamente vencidos pela mediocridade e o sono.

De repente, um barulhão enorme grita no silêncio e no escuro: alguma coisa caiu na na área externa do apartamento. Imediatamente acordaram do torpor televisivo. A vizinhança toda correu para janela.

– Caramba, será que alguém pulou aí fora?

– Como assim, suicídio?

– Sei lá!

– Não parecia gente… quem sabe um gambá que escorregou lá de cima?

– Você consegue ver alguma coisa da janela?

– Não, está muito escuro, esqueci que a luz tinha queimado e, não tem jeito, vou lá ver, olha a comoção que está provocando…

Pegou a lanterna, acendeu e foi checar o que tinha acontecido. Para alívio geral não havia corpo algum, as plantas estavam intactas e nenhum gambá pulou no seu pescoço. O piso, no entanto, estava cheio de pedaços quebrados de reboco.

A vizinha do andar de cima, assustada, mostrava seu prejuízo, a persiana do quarto quebrada. A lanterna, na verdade uma lanterninha de led do tamanho de uma canetinha, mal iluminava a fachada do prédio. De qualquer maneira, ficou claro que não fora um atentado terrorista e sim um reboco mal colocado (é assim mesmo que se fala?).

Foi isso, foi aquilo, cadê o síndico, cadê a polícia, ainda bem que não machucou ninguém, o reboco transformou o fim de noite num convescote. Sem conclusão alguma, trancaram a casa e foram dormir, desta vez na cama mesmo. Ainda teve tempo para encerrar a aventura com a pergunta que não queria calar, desde que o incidente começou:

– Já imaginou se fosse um suicida? Sabe como é, Dia dos Namorados, a pessoa solitária, deprimida, uma ótima data para morrer e a gente ia passar a noite na delegacia prestando depoimentos. A mulher sequer respondeu. A essa altura, dormia o sono dos justos.

Ladrões

A jovem executiva saiu apressadamente da reunião com a diretoria de ensino da Uerj, já pensando no próximo destino, a Faculdade de Medicina da Ilha do Fundão. Olhou o relógio e preocupou-se, afinal não conhecia o Rio direito e jamais tinha se aventurado por essas bandas da Mangueira.

Chegou na rua, procurando um táxi. Tirou o smartphone da bolsa para checar as mensagens, avisar o escritório que já estava à caminho e verificar se estava tudo em ordem em casa. Digitava tão concentrada que nem notou que um senhor se aproximou, indignado:

– A senhora quer me prejudicar, não é mesmo? Porque não pára de escrever e chama logo um táxi, um uber ou a merda do metrô?

– Desculpe, mas prejudicar como, só estou acertando minha…

– Dona, está vendo aqueles dois garotos do outro lado da rua? Pois é, não tiram o olho da senhora e só não deram o bote porque eu estou aqui.

– Puxa, o senhor é polícia?

– Qualé, esse trecho da rua é do jogo, assalto só da esquina para lá. Os dois me conhecem, moramos na mesma comunidade, mas a senhora está dando bandeira demais e aí, dona, se acontecer alguma coisa, quem vai responder pelo seu assalto sou eu. Pelamordedeus, pega logo o taxi e me deixa trabalhar sossegado.

Assustada, embarcou no primeiro carro que parou, olhou desolada para o motorista e, antes de informar o novo destino, desabafou: é… não está fácil para ninguém!

Incêndio!

Os três carros de bombeiros, inclusive uma escada magirus, estacionados em frente ao apart-hotel destinado a idosos não era um bom sinal. Uma pequena multidão olhava para cima e para os lados. Na pizzaria que ocupa todo o primeiro andar, os empregados conversavam entre si, do lado de fora. O prédio todo às escuras, assustava…

— Oi amigo, o que está acontecendo?

— Cheguei agora, mas parece ser um incêndio.

— Pois é, mas incêndio sem fumaça é estranho, né?

Uma senhora ao lado, não resistiu:

— Ih, moço, parece que foi na cozinha da pizzaria. Olha só a cara de desânimo dos garçons!

— Será?

— Não, de jeito algum, os bombeiros entraram pela portaria do prédio, ao lado e cortaram a força do prédio. O incêndio deve ser lá em cima.

— Alguém notou que não veio nenhuma ambulância?

— Mas é muita irresponsabilidade mesmo! E como é que vão levar os velhinhos feridos para os hospital?

— Espera aí, minha senhora, tem gente ferida? Que horror!

— Bom, eu não sei se tem, mas nesse hotel só mora idoso, todo mundo sabe isso.

O dono da padaria pagou geral!

— Pô, vocês são fogo. Olha só a calma dos quatro bombeiros que não subiram. Dá pra acreditar que tem velho ferido? Ô gente boateira.

Sentiu que dali não ia sair nada, a não ser, talvez uma briga e resolveu investigar na calçada da frente. Discretamente passou por baixo da faixa amarela e foi conversar com o pessoal da pizzaria.

— Fala amizade, como é que tá o incêndio?

— Não sei, os bombeiros estão aí dentro, procurando.

— Ué, o fogo não foi na cozinha de vocês?

— Claro que não! Aliás, tivemos que desligar tudo e, se continuar assim vamos perder a noite e as gorjetas. Ninguém merece!

Mas o operador do burrinho sem rabo tinha sua própria explicação:

— Não fica triste não, daqui a pouco os bombeiros liberam tudo. Foi só um velhinho preso no elevador. Tirando ele de lá, vocês voltam pro trabalho.

— Pô, cara, precisava vir a escada magirus pra tirar alguém do elevador?

— Vocês estão confundindo tudo! Desta vez foi um guarda municipal que palpitou: Um dona deixou o feijão no fogão, dormiu, queimou e os homens estão lá, controlando a situação.

— Hahahaha, desde quando madame de apart-hotel faz comida no fogão? Aqui não tem isso não, seu guarda!

— E por falar nisso, já que você é uma autoridade, porque não vai lá e pergunta para os bombeiros o que está acontecendo?

— Mandou bem, coroa. Ao invés de ficar multando carro ou perseguindo camelô, vê se faz alguma coisa que preste!

— Olha o respeito!

Mas, curioso como todo o carioca que se preza, logo o guarda municipal conversava animadamente com os bombeiros e, pelos gestos e expressões, boa coisa não devia ser. Ficamos todos quietos, esperando para ouvir as péssimas notícias.

— Pessoal, não foi nada não, foi um trote. Os bombeiros estão terminando a vistoria e a força foi cortada por medida de segurança. Já vão liberar o prédio e a pizzaria. Acho que nem preciso chamar o reforço.

— Trote? Putz, ainda tem quem faça isso? Deviam enforcar o infeliz que faz uma brincadeira dessas. E ainda mais num prédio da terceira idade!

— Você vê, tiraram três carros do quartel para nada. E se tem um incêndio em outro lugar, pra valer?

Pois é, no fim das contas, um trote e muita desinformação.

A cara do Rio mesmo.

Que pena…

bikedomingo

Na semana que termina comemoram-se duas datas importantes para cristãos e judeus, a Páscoa e o Pessach. Infelizmente, o que vai ficar são os atos de violência urbana explícita e gratuita que tiraram a vida de inocentes, inclusive uma criança de dez anos.

A foto, feita agora mesmo, na Pompeu Loureiro, aqui em Copa, quando retornavamos de uma caminhada na Lagoa,mostra um raro momento de paz, onde um ciclista, apropriadamente na ciclovia, circula solitaria e tranquilamente, rumo ao seu destino.

Uma pena, mas está ficando difícil acreditar que essa cidade ainda é maravilhosa…

Foto: Carlos Emerson Junior

Ponto de ônibus

A gente passa por aqui e sente uma tristeza enorme. Agora, depois que o menino se foi, colocaram até uma viatura da PM do lado. Sei lá, é nessas horas que a gente cai em si e percebe como é difícil viver nessa cidade que tinha tudo para ser maravilhosa.

Recomendo a leitura do artigoNós não perdoamos os assassinos nem os governantes, desabafo emocionado escrito por Mausy Schomaker e Andrei Bastos, os pais do jovem Alex Schomaker Bastos, morto por assaltantes no dia 8 de janeiro, nesse ponto de ônibus da foto, em frente à Universidade Federal do Rio de Janeiro, em Botafogo.

Prisão

Os números divulgados no artigo do jornalista Afonso Bentes, no jornal espanhol El País, impressionam e acendem uma luz em nossa completa ignorância e distância desse problema. O Brasil é um dos países que mais aumenta seu número de presos. Nossa taxa de detentos para cada grupo de cem mil pessoas passou de 287 para 300, em apenas um ano.

Segundo o Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN), existem 574.027 presos distribuidos em 317.733 vagas, quase duas vezes acima de sua lotação. A maioria é negra ou parda (61,68%), analfabeta ou com apenas o primeiro grau (68%) e cometeu crimes não violentos, como furto, tráfico de drogas e estelionato (51%).

Mais de 44% deles são os chamados ‘detentos provisórios’, aqueles que não foram julgados, mas permanecem presos. Em São Paulo, a primeira audiência entre o detento e um juiz varia entre 109 a 135 dias. Enquanto isso, ele fica em uma cela com outras 40 ou 50 pessoas, sujeito a doenças e cooptação por facções criminosas.

O próprio ministro da justiça afirmou que as prisões brasileiras são medievais e “se fosse para cumprir muitos anos na prisão, em alguns dos nossos presídios, eu preferiria morrer”.

Pois é, fico aqui no meu canto matutando, para que mesmo serve uma prisão?

As veias abertas do Brasil

“Foi necessário um sistema político local construído para manter o poder nas mãos de uma minoria branca. Foi necessário que a polícia adotasse práticas para degradar, desumanizar e intimidar as pessoas. Foi necessário um sistema de Justiça criminal que fizesse ser quase impossível responsabilizar policiais quando eles matam, como eles fazem às centenas todos os anos em comunidades por todo o país. E foi necessário um conjunto de autoridades com uma competência espetacular: o chefe de polícia que desde o início tratou os que jurou proteger como um inimigo armado, o prefeito que simplesmente desapareceu, o promotor que tomou a incompreensível decisão de esperar a noite chegar para divulgar o resultado da decisão do grande júri, quando ele sabia exatamente como as pessoas iriam reagir.”

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