Pirralhos

Foto: Little Rascals (1932)

Você sabe o que é pirralho? Palavra de origem obscura, no Brasil e em Portugal significa “criança”, “jovem”, indivíduo de pequena estatura” e em sentido pejorativo “criança ou jovem atrevido ou com pretensões de adulto”. Considerada um brasileirismo, só aparece nos textos brasileiros dos séculos XVIII e XIX, e em Portugal nas regiões da Beira, Minho e Madeira. Mas isso não importa, a palavra existe e é antiga.

A propósito, o jornalista e poeta brasileiro, Emílio Nunes Correia de Menezes, nascido no Paraná em 1866, deixou uma frase ótima usando a palavra “pirralho”: “apertado para aliviar a bexiga, correu até um terreno baldio. Muito gordo, estava a desafogar-se quando um pirralho grita: Ih, eu vi seu negócio!. Satisfeito, Emílio tirou do bolso uma cédula de alguns réis, dando-lhe: “Tome, você merece! Há muitos anos não o vejo…”

Machado de Assis, no seu conto “Bons Dias”, conversando com um escravo: “– … Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos…” E no “Diálogo” da “Teoria do Medalhão”, o pai conversa com o filho: “- Saiu o último conviva do nosso modesto jantar. Com que, meu peralta, chegaste aos teus vinte e um anos. Há vinte e um anos, no dia 5 de agosto de 1854, vinhas tu à luz, um pirralho de nada, e estás homem, longos bigodes, alguns namoros…”

E, para não esquecer as obras primas, em seu romance “Dom Casmurro”, no capítulo 22, Sensações Alheias”, o autor conta o pensamento do narrador e… “Ciúmes não podiam ser; entre um pirralho da minha idade e uma viúva quarentona não havia lugar para ciúmes.” Precisa mais? Precisa, é claro.

José Mauro de Vasconcelos, em seu premiado e muito vendido “O Meu Pé de Laranja Lima” escreveu “A carranca do Português parece que aumentara. Seus olhos despendiam fagulhas. – Então, moleque atrevido. Eras tu? Um pirralho desses com tal atrevimento! … Deixou que meus pés tocassem no chão”

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Pois é, meus caros, meus pais cansaram de me chamar de pirralho. Eu mesmo, aliás, volta e meia usava o pirralha com minhas filhas. A palavra, que estava esquecida, foi bastante usada nos anos 50/60/70, sem provocar nenhum trauma, ao contrário do acontece hoje em dia. Vai entender…

Carlos Emerson Jr (2019)

Metrô

Foto: Tomi Um (New York Times)

A plataforma de embarque do Metrô na estação Copacabana como sempre cheia, muito cheia. Final de dia, queria o quê? Pelo menos os trens não estão atrasados. Logo uma luz surge na escuridão do túnel, anunciando sua próxima chegada. Vagões cheios, a multidão na plataforma se desloca para as suas portas e a lei da física mais uma vez confirma que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo e um impasse absurdo se estabelece, ninguém consegue entra ou sai da composição. Eu sei, o bom senso e a educação mandam que quem vai embarcar aguarde quem vai desembarcar, mas… Deixa pra lá.

A primeira fase da viagem, até a Estação Central do Brasil, é um tormento. O excesso de lotação não permite sequer um reles pensamento. Dali para a frente, o carro vai esvaziando e dá uma melhorada. Se der sorte, consegue até para sentar, tirar o celular do bolso e conferir as redes sociais. Aliás, quase todo mundo no vagão, mesmo quem viaja em pé, faz o mesmo. A cabeça inclinada, os olhos atentos na telinha iluminada. Foi-se o tempo que os passatempos preferidos dos passageiros eram dormir ou observar o sujeito do banco da frente, a moça ao lado da porta, o casal de velhinhos no banco preferencial. Agora é tudo virtual.

Chego ao meu destino, saio do carro, subo as escadas da estação para a luz da rua e só aí me dou conta que esqueci a pasta com o trabalho para terminar logo mais mais à noite. Não dá para deixar para lá, o assunto é importante, tão importante que tomo a dura decisão de embarcar de volta ao escritório, pegar minha pastinha e retornar para casa. Mais uma ou duas horas perdidas. Acontece. Numa das colunas um cartaz com um Cristo Redentor acima de uma cidade maravilhosa improvável, me observa desalentado. Neste instante as portas se abrem, sento lá no fundo do vagão, fecho os olhos e tento cochilar um pouco. Afinal, o Metrô leva, o Metrô traz. Simples assim.

Saúde!

 

copacabana 1940

Esse ‘causo’ aconteceu no longínquo e perdido ano de 2015, lá na ex-cidade maravilhosa.

Caminhada no final da tarde na praia, na direção do Posto Seis. Domingo, uma multidão saindo da areia na direção das estações do Metrô e pontos de ônibus e uma outra chegando para tomar um vento e ver as modas, como se falava antigamente, cruzavam animadamente o calçadão, mal dando espaço para andar. E não é figura de linguagem não!

Segurei a mão da minha mulher e lá fomos nós seguindo o fluxo que ia para o sul e desviando do contra fluxo rumo norte. Foi quando meu nariz começou a coçar. Aliás, quem tem rinite sabe o que estou falando. Sem dar tempo sequer de fungar, soltei um espirro de alívio, em alto e bom som que, como efeito colateral, assustou quem ia e vinha pela via. Minha mulher me olhou muito séria, com os olhos arregalados:

– Cara, que susto que você me deu! Precisava espirrar tão alto? Você tremeu tanto que pensei que tinha sido atingindo por uma bala perdida! Não faça mais isso, todo mundo se assustou. Só esse ano mais de 36 pessoas já foram atingidas por balas perdidas e dois casos foram aqui em Copa. Toma juízo!

Para meu espanto, uma pequena roda se abrira e as pessoas, me olhando com curiosidade, pareciam concordar com a bronca. Tá bom, espirrei alto, talvez herança dos espirros escandalosos que meu pai dava, sempre no meio da rua, que me levavam às gargalhadas. Só esqueci que isso foi há mais de 50 anos, quando o Rio ainda era uma cidade risonha e franca, sem balas perdidas, por óbvio.

Bons tempos.

 

Alegria, alegria

“Caminhando contra o vento,
sem lenço e documento.
No sol de quase dezembro,
eu vou.”

Pois é, a canção de Caetano Veloso, que tanto me entusiamou nos anos 60, não só pelos versos quase jornalísticos como pelo som distorcido do grupo de rock paulista The Beat Boys, colocando guitarras na então chamada MPB, veio imediatamente a minha cabeça quando cheguei na praia para a caminhada diária e matinal da quarta-feira da semana passada.

Ventava muito, mas eu tinha os documentos. Afinal, carioca prevenido sempre tem consigo uma xerox da identidade, um telefone de emergência e uns trocados. Aqui, meus queridos, a gente nunca sabe o que vai encontrar pela frente. Mas caminhava contra o vento, sem lenço e no sol de quase dezembro. E ia.

Para ser sincero, não saí cantarolando a música, muito pelo contrário. A areia que o vento jogava diretamente na cara de quem corria ou caminhava, atrapalhava a visão, a coordenação e a necessária concentração. Pior, o calçadão da Atlântica, ainda úmido do orvalho da madrugada, virou um imenso sabão e todo o cuidado era pouco para não ir de cara no chão.

Só de birra resolvi resolvi emendar um trajeto longo, Posto 6 ao Leme, ida e volta. E foi começar que dei de cara com um cidadão, de olhos esbugalhados, gritando para mim:

– Cuidado, cara, abaixa!

Nem discuti, abaixei direto e ao meu lado passou voando desgovernada um guarda sol aberto, como se fosse um missel surrealista, não fosse ele toda vermelha e branco! Atrás vinha seu dono, compondo um estranho quadro, mais anárquico ainda quando o guarda sol voador aterrisou em plena Avenida Atlântica, no meio dos carros.

Uma jovem que trotava na ciclovia, a essa altura completamente vazia, para com os olhos cheios de areia. A estátua do Drummond, sentada de costas para o mar, não teria esse problema mas, em compensação, ninguém se animou ou melhor, conseguiu parar para tirar as tradicionais fotos. O poeta estava irremediavelmente só.

Levantei, agradeci o aviso, endireitei o corpo e continuei em frente, Qualquer hora o vento ia diminuir e, aí sim, valeria cantar o resto da canção:

“Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou
Por que não, por que não…”

Foto: Marcelo Piu (O Globo)

Onde estão as máquinas de escrever?

Vocês se lembram das máquinas de escrever? O anúncio aí ao lado vende uma Remington portátil, “perfeita para utilização em fazendas” no interior, no longínquo ano de 1927 do século passado. E, pelo jeito, era uma baita novidade, o notebook da época!

Curiosa e sinceramente, não sinto nenhuma saudade delas, talvez por ter trabalhado uns bons quinze anos atrás de uma, desde as remotas Underwood, no Exército, até as moderníssimas IBM eletrônicas, já nas Docas de Santos.

Para nossa sorte, tudo mudou quando os primeiros computadores pessoais e seus editores de textos apareceram e ninguém mais conseguiu viver sem um. As velhas máquinas encerraram seus dias em porões, ferros velhos ou em museus, como relíquias de uma época que já era.

Até que um dia…

Bom, descobrimos que o Obama estava espionando o mundo inteiro, democraticamente sem escolher ideologia, religião, cor ou sexo A Rússia imediamente anunciou a aquisição grande quantidade de máquinas de escrever para seus serviços de informação. O Brasil, para não ficar atrás, também avisou que pode fazer o mesmo. De repente, todo mundo saiu em busca de suas velhas Remington, Olivetti, Hermes Baby, Smith Corona, Facit, IBM, Royal e por aí vai. E foi com pesar que descobriu-se que a última fábrica desses equipamentos, a indiana Godrej & Boyce, encerrou sua produção em 2009.

Talvez os antigos comerciantes consigam desencalhar as derradeiras máquinas até que alguém se lembre que um dos motivos para sua decadência foi a notória falta de segurança. Ou já se esqueceram do papel carbono? Para mim, isso nem seria um motivo plausível, já que não sou espião, lobista ou político. Mas só de lembrar a trabalheira para corrigir uma simples letra trocada em um texto, fico com arrepios.

De qualquer maneira, reconheço que gostava delas, principalmente as elétricas alemãs da Olympia, verdadeiros blindados Panzer com teclas. Mas, sério mesmo, prefiro que elas apenas ilustrem este post, talvez mostrando que seu dono aprecia o ofício de escrever. E, de toda essa confusão de espionagem, digna de um romance de qualidade duvidosa, que fique uma lição e conselho: respeitemos sempre a privacidade alheia.

Mas, sei lá, isso é pedir demais, reconheço. E assunto para outro post…