O futuro das favelas

Sou carioca, nascido em Copacabana na década de 50 do século passado e já convivia com favelas desde aquela época. Perto de casa tinha a da ladeira Saint Roman e a do Pavão-Pavãozinho que eram separadas, se não me falha a memória.

Na Lagoa Rodrigo de Freitas pontificavam duas enormes aglomerações: Praia do Pinto, que virou o conjunto de edifícios populares da Cruzada São Sebastião e a Catacumba, removida depois de um incêndio.

Em cima do Túnel do Pasmado havia outra, também removida e a da Ladeira dos Tabajaras era tão pequena e integrada, que costumávamos passear de carro cortando o caminho até a Lagoa por uma série de ruas que subiam o morro e nos davam de presente uma vista de tirar o fôlego.

Estava pensando nisso ao ver a recente onda de violência que varreu parte de Copacabana, Lagoa, Humaita e Botafogo, provocada pela tentativa de invasão da favela da Ladeira dos Tabajaras por traficantes da Rocinha.

Claro que os tempos não são mais os mesmos. Em 1955 ou 56, sei lá, Juscelino Kubistchek pessoalmente veio inaugurar o túnel que liga a ruas Barata Ribeiro e Raul Pompéia e o palanque foi montado bem embaixo da comunidade da Rua Saint Roman.

Imaginem se hoje uma coisa dessas seria possível!

Mas o tempo passou e a sociedade carioca simplesmente fechou os olhos para o problema. Alguns ainda chegaram a louvar a convivência pacífica entre miseráveis, pobres e a classe média.

Durante muito tempo era prático e útil você ter seus empregados estavam ali pertinho, não interessando em que condições de vida. Havia até uma lenda de que os moradores do asfalto perto de uma favela estariam protegidos por uma espécie de lei não escrita que impediria assaltos em seu entorno…. quanta ingenuidade!

As comunidades acabaram explodindo com as migrações internas dos anos 80 e 90 e quando políticos e até gente bem intencionada descobriram que manter o status quo rendia votos e, principalmente, verbas de todos os tipos.

O que aconteceu em Copacabana nesse começo de semana era mais do que previsível. Vejam só até onde deixaram chegar as coisas:

– a favela da Rocinha, uma das maiores do Rio possui, segundo o IBGE, 75 mil habitantes, 29.915 domicílios, 6.317 estabelecimentos comerciais, 3 agências bancárias, uma dos correios, uma prestadora de TV a cabo oficial, inúmeras rádios comunitárias e por aí vai.

Seu crescimento urbano é completamente desordenado, poucos pagam impostos e até mesmo luz. O acesso é complicado, pela disposição irregular das casas e o tráfico encontra aí, nesse emaranhado todo, condições perfeitas para se estabelecer.

Devastaram e ainda devastam uma área enorme de mata com nascentes, um desastre ambiental. E boa parte de seus moradores convivem com sujeira, doenças e violência. E ainda querem que essa gente saia à noitinha para cantar samba!

O que foi feito nesses 60 anos para, pelo menos, ordenar o crescimento da Rocinha ? Absolutamente nada. Os governantes, sejam eles quais forem, mandam no asfalto e fingem que o poder do estado chega nos morros.

Tudo é permitido e vemos espantados medidas eleitoreiras como instalação de wi-fi no morro Dona Marta, pintura das fachadas de casas no Livramento e construção de quadras de esportes a granel ao invés de uma política séria e consistente de efetiva urbanização de toda a favela ou até mesmo, porque não, a remoção para locais mais seguros e civilizados.

Meus caros, o século XXI acabou com a idéia absurdamente romântica e elitista do morro convivêndo em paz com o asfalto. Essa mistura é explosiva, como óleo e fogo. As próximas confusões serão todas em ruas da classe média, até porque afasta os agentes repressores dos morros onde tocam seus negócios.

O Rio de Janeiro caminha rápidamente para se tornar, ao contrário dos anos 50, uma grande favela cercando alguns bairros de classe média. E seus moradores tendo que pedir licença para ir de um ponto ao outro.

Tomara que eu esteja enganado…