Impeachment

Pois é, hoje em dia só se fala em impeachment, palavra inglesa que significa impedimento ou impugnação, processo contra autoridades do governo que, sem a menor noção, pisam feio na bola, esquecendo que estão ali para servir e não usufruir.

Quem vai ser “impugnado” esperneia, jura inocência, ameaça e fala em golpe mas, na hora H, para evitar uma humilhação, renuncia e sai de fininho do Alvorada com cara de bunda. Infelizmente, como as leis brasileiras são feitas por brasileiros, o cidadão deposto sabe que voltará triunfante daqui a 8 anos, com ficha limpa e tudo.

Podemos “impugnar” (“impedir”, vai saber) o Presidente da República, os governadores e prefeitos. Tudo bem, o ritual é complicado, longo e as chances de não tirar o cara (ou a cara) do cargo é enorme, mas é bom saber que nossa democracia permite esse tipo de ousadia.

Já se aqui existisse uma monarquia absolutista, por exemplo, perder a cabeça seria garantido. A nossa, é claro, em praça pública e transmissão para a TV. Em compensação, a única maneira conhecida e garantida de tirar a coroa desse tipo de rei é separando sua cabeça do resto do corpo, com coroa e tudo. Caramba, e ainda tem quem fale mal da democracia.

Mas esse papo todo quer dizer uma só coisa: se a Constituição, a Carta Magna, a Biblia, o Corão ou a Torá preveem o “impeachment”, ele pode ser considerado tudo, menos golpe. Aliás, basta dar uma olhada na história recente de nossa república para confirmar o que estou dizendo.

De fato, de 1990 até dezembro de 2015, foram protocolados no Congresso 132 pedidos de “impeachment”, distribuídos pelos seguintes presidentes:

Collor (1990–1992): 29
Itamar (1992–1994): 4
FHC (1995–2002): 17
Lula (2003–2010): 34
Dilma (2011–2015): 48

Apenas um pedido seguiu em frente e resultou no afastamento do então “Caçador de Marajás”.

Efetivamente golpes tiram presidentes, reis, ditadores e assemelhados de seus tronos. No Brasil foram apeados do poder os presidentes Washington Luiz (1930, por Getúlio Vargas), Getúlio Vargas (1945, pelos militares) e o João Goulart (1964, também pelos militares).

Getúlio acabou tirando sua própria vida em 1954, diante de graves acusações de corrupção e o homem da vassourinha, Jânio Quadros, renunciou em 1961, acossado pelas “forças ocultas”…

Não, decidamente, diante de tudo que está vindo à tona com as investigações da Lava-Jato, não acredito em golpe e acho que o pedido de “impeachment” é legítimo. Minha preocupação, agonia, desespero, é com o day after, seja ele qual for.

Quem assume é o vice do PMDB, certo? Mais ou menos, afinal a justiça abre cada vez mais seus braços e ninguém sabe o dia de amanhã. Já imaginaram se toma posse o Presidente da Câmara dos Deputados? Ou do Senado? Dá para entender o espanto de um dos ministros do STF:

“Meu Deus, essa é a nossa alternativa de poder?”

A questão, no fundo, é saber o que realmente queremos, se é que queremos mesmo alguma coisa. Com 65 anos de idade, acreditava piamente que em 2016 já estaria no futuro, afirmação que ouvi desde que nasci. Só que esqueceram de combinar com o resto do país e aqui estamos nós, metidos numa crise digna dos anos 50.

Ah, meus caros conterrâneos, aprendam com o escritor portugues Eça de Queirós, que viveu, vejam só, no século XIX: “políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo”.

E não é mesmo?

Foto: André Coelho (O Globo)

Fora, fora, fora

Fora, grita o senador.
Fora, apoia o deputado.
Fora, fora, fora,
é o mantra de todas as bancadas.

Governadores se reúnem,
os prefeitos em massa aderem.
Fora, fora, fora,
vereadores em marcha protestam!

A mídia deita e rola,
palpita, debate, participa e informa:
fora, fora, fora
é, sem dúvida, a manchete do século.

Cientistas políticos dão palestras,
Socialites, intelectuais e sábios determinam:
fora, fora, fora,
a hora de mudar é agora!

Bancos, comércios, indústrias,
prestadores de serviços, todos exultantes,
aumentam suas taxas e preços.
Fora, fora, fora
de repente, virou slogan de vendas.

Nas ruas, quem diria,
o povo nem se divide,
Fora, fora, fora,
alegremente, é o tema do dia.

Veio a votação e, que lástima,
congressistas e juizes não se entendem,
um tal quorum não é atingido e
ninguém foi para fora.

No dia seguinte, de ressaca, a volta à normalidade:
discussões, acusações, ameaças, agressões.
Fora, fora, fora,
amanhã vai ser outro dia.