Agosto, o fim de um deus

Nagasaki, 1945

Foi no dia 15 de agosto de 1945, ao meio-dia, que Deus falou para o povo no rádio, pela primeira vez. O Imperador Hiroito, considerado uma divindade no Japão, anunciou que a guerra havia terminado e todos tinham que se preparar para suportar o intolerável. As imagens e o terror provocado pela destruição das cidades de Hiroshima e Nagasaki (duas cidades católicas, por sinal) tinham sido suficientes. Em 1º de janeiro de 1946, o imperador fez sua segunda transmissão radiofônica afirmando que sua família não tinha nenhuma ligação divina, seu sangue era igual aos dos japoneses e ele decididamente não era um deus. Por iniciativa das tropas de ocupação aliadas, preocupadas com notícias de suicídios em massa, tumultos e vandalismos, o Imperador Hiroito continuou no poder até morrer, em 1989. Com o passar dos anos, todos se esqueceram que um dia ele foi Deus.

Para quem se interessar, segue o link com a tradução livre com a transmissão histórica do dia 15: Gyokuon-hōsō.

O Imperador da Paz

O imperador da paz
Foto: Ytsuo Ynouye

O 125º Imperador do Japão, Akihito, quinto filho do imperador Hiroito (aquele mesmo da segunda guerra mundial), nasceu em 1933 e assumiu trono em 1989, onde reinou até hoje, dia 30 de abril, quando abdicou em favor do seu filho Naruhito, depois de 30 anos, por motivos de saúde (um câncer e coração). É o primeiro imperador a abrir mão do trono em 200 anos.

Confesso que cresci vendo a figura icônica do seu pai, o primeiro imperador japonês que foi ao rádio avisar ao seu povo que o Japão não podia mais continuar a guerra. Com o tempo, a história foi sendo escrita, revista e descobri que o filho Akihito era seu oposto, tendo visitado mais de 37 países, a maioria deles para pedir perdão pelos sofrimentos da guerra. Apoiou materialmente e pessoalmente as vítimas dos terremotos e da usina de Fukushima, tragédias que devastaram o Japão nos anos recentes. Em suma, era um imperador da paz.

Aliás, uma de suas últimas frases, que vai ficar marcada na minha memória, foi quando ele afirmou que sua “maior alegria era saber que durante seu reinado nenhum soldado japonês morreu numa guerra ou conflito armado”. Até onde eu sei, só o Papa pode afirmar algo semelhante.

Vai com Deus, Imperador Akihito. E oremos para que Naruhito não se meta em aventuras militares de terceiros, o mundo precisa muito de paz.