Ondas

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© carlos emerson junior

I

Uma tarde atípica, sem dúvida. O vento sudoeste, muito frio, espantou turistas, namorados e corredores. O mar batido dava medo e nem o pessoal do surf deu as caras. Sentado em um banco tomado pela areia, virou de costas para o calçadão e limitou-se a esperar o fim do dia. Sem querer lembrou-se dos versos do Manoel Bandeira, aquele que diz “nas ondas da praia, nas ondas do mar, quero ser feliz, quero me afogar”. Sorriu levemente com o canto da boca e chegou a desejar que uma onda bem grande, rápida e sem deixar qualquer vestígio, o levasse embora dali.

II

1963. Uma onda se formou lá pelos lados das Ilhas Cagarras, passou por cima dos canhões do Forte de Copacabana e explodiu com força na Avenida Atlântica, ainda com uma só pista. Pela manhã fui ver o estrago. Tinha areia até na Avenida Copacabana. A Biblioteca Thomas Jefferson, perto do Copacabana Palace agonizava, invadida pelas águas. Foi o mais perto que já vi de um maremoto. Mas, naquela época, não tinha como saber isso.

III

Praia de Copacabana, Posto 5. Uma manhã cinza. Ventava. Passei por baixo da primeira onda, muito grande. Quando emergi para respirar, um outra, maior ainda, desabou na minha cabeça. Fui empurrado até o fundo. A correnteza, que me puxava para o mar, desta vez se inverteu. Subi o mais rápido possível, respirei e deixei o corpo seguir. Ainda levei mais duas caixotadas, mas o mar acabou me jogando na areia. Estava tossindo a água que engolira quando um rapaz veio correndo saber se estava tudo bem. Tirando meu orgulho, estava sim.

IV

O pequeno veleiro cortava a Baia da Guanabara, perto da Praia do Flamengo, quando o instrutor avisou, onda à frente. Virei a proa em sua direção, subimos e descemos, prontos para encarar a próxima. Mas não veio nenhuma outra. O mar voltou a ficar liso e o vento manso. Acho que aquela onda foi só uma brincadeira. Do tipo, acorda aí, marujo!

V

Que pena… Nunca mais velejei.

Naveguemos

Wainessa, Amigo do Mar, Marinheiro Popeye, Devaneios, Vila do Conde Mestre Fausto, Deus é Luz, Como Deus Quiser, Argonauta, Dom Cidi, Estrela da Manhã, Dina e Paula, Dona Dalila, Filha de Gaia, Gaivota da Urca, Mestre João Coração de Mãe, Atrevido, enfim, quase todas as embarcações tem um nome.

Antigamente, quando navegar era uma completa aventura, dependendo do vento e das marés, era muito comum apelar para os santos de todas as religiões pedindo proteção. Também é tradição usar um nome de mulher, embora ninguém saiba bem porque. De qualquer maneira, com ou sem nome, barcos são lúdicos, pelo menos para quem senta na beira da baia e fica observando seu movimento para cá e para lá, ao sabor das correntes.

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De repente descobri que o mar da Baia da Guanabara é diferente do mar aberto do oceano. Se as ondas por aqui são suaves, os barcos estão por toda a parte. Grandes, pequenos, feios, bonitos, modernos, velhos, veleiros, traineiras, botes, canoas, iates, o que o freguês imaginar. E dos atracadouros do Iate Clube, do Quadrado da Urca, do Forte São João e até mesmo o pequeno cais em frente à rua onde moro, saem ou chegam os barcos que cortam essas águas antigas levando gente para outras paragens.

Tudo bem, não há mais terras para descobrir. Mas ainda há peixes para pescar, lugares para conhecer, ondas para enfrentar, nevoeiros para desbravar. Aos barcos, rumo ao horizonte navegar. “Marujos, levantar ancora, içar velas, soltar as amarras!”

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Fotos: Carlos Emerson Jr.

Barlavento

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Em algum ponto da década de 80, no século passado, eu resolvi velejar. Um amigo deu a maior força e lá fomos nós, todos os sábados, cruzar as águas da Baia da Guanabara, conduzindo um veleiro, tal qual dois marinheiros aprendizes, maravilhados com o silêncio e a arte de usar as águas e o vento para ir a qualquer lugar.

Não importava se o dia estava claro e o mar de almirante. Ou se a chuva e o vento sudoeste traziam ondas escuras, jogando o barco para cima e para baixo, com a visibilidade quase caindo a zero. A pior parte, sempre, era quando chegava a hora de retornar ao cais, manobrar e lançar as amarras: significava que a magia estava encerrada.

Em terra aprendemos termos náuticos, uma linguagem completamente diferente e ao mesmo tempo universal. Palavras como adriças, barlavento, sotavento, bombordo, boreste, popa, proa, escota, genoa, mestra, balão, moitão, quilha, guarda-mancebo, estai, brandai, cana de leme e leme só soam naturais dentro de um veleiro. Seu lugar é ali.

Os anos se foram e os dias de vela terminaram ficando como uma boa lembrança. Vários amigos continuam no mar e hoje tenho dúvidas se deveria ter me afastado tanto do litoral, ficando a sotavento de minhas origens.

Barlavento e sotavento se referem ao lado da embarcação de onde e para onde o vento sopra. Geograficamente é como o ar em direção a uma montanha, forçado a subir, condensando-se e provocando chuva. Após passar seu cume, já sem umidade e aquecido, desce. Por isso é comum encontrar florestas a barlavento e áreas mais áridas a sotavento.

O vento que enche a sua vela vem de longe e, bem manejado, coloca o barco em movimento. Navegar bem é uma arte e um ofício que exige dedicação e conhecimento. Um blog, por sua vez, precisa de conteúdo, muitas crônicas, artigos, fotos, vídeos, contos e poesias para manter seu rumo.

Que seja a barlavento, pois.