O melhor tinto da casa

Foto: Carlos Emerson Jr.

Chovia torrencialmente. Sentado no antigo restaurante alemão, de frente para a porta, observava a rua sendo lenta e consistentemente tomada pela água que descia do morro próximo. Agora nenhum pedestre se atrevia sequer a caminhar embaixo da marquise. Os automóveis começavam a rarear. Aquela tempestade prometia.

Reparou, desolado, que a garrafa do vinho tinto estava quase vazia. Virou para trás procurando o pessoal da casa e notou que estava só. Como sempre, nem sequer notara que as horas passaram e o domingo terminava. Daqui a pouco o alemão traria a conta, eles fechariam as portas do estabelecimento e iriam embora.

Uma sequência de trovões interrompeu seu pensamento e levou a luz de todo o quarteirão. O proprietário veio espiar e os dois ficaram olhando a chuva cair e os brilhos dos relâmpagos iluminarem o interior do restaurante, provocando um efeito estranho de alguma coisa muito antiga.

Considerou que pedir a conta, no escuro, seria uma asneira. Sair para caminhar até sua casa, outra maior ainda. Lembrou da grande chuva de 2011 e da enxurrada que levou ruas, casas, carros, pessoas e animais, destruindo quase toda a cidade. Não morrera simplesmente porque não era sua hora.

Suspirou profundamente, chamou o alemão e pediu para trocar as taças, de preferência as de cristal da Riedel, abrir o melhor tinto da casa e vir lhe fazer companhia. Ainda tinham algum tempo antes da chegada do fim do mundo.

Morri

– Acho que eu já te contei que morri, fui pro céu e voltei, não é mesmo?

— Não e não estou com a menor disposição para ouvir mas, infelizmente, tenho a impressão que você vai contar de qualquer jeito…

– E porque eu faria isso? Se você não quer ouvir eu não conto e ponto final.

– Tá falando sério, cara?

– Te enganei, imagina se não vou contar a história de minha vida. Começo do começo, digo, da infância ou você quer que eu vá direto para a minha morte?

– Faz o que você bem entender, acabei de perceber que também morri e não tem nem uns vinte segundos. Assim, logo, logo você estará contando sua história para um corpo inerte.

– Você morreu mesmo?

– Tô mortinho da silva e muito espantado com sua distração. Pô, você não sabe reconhecer um defunto quando dá de cara com um? Afinal, experiência não lhe falta, você já morreu uma vez.

– Morri e desmorri. Tudo bem, fica calmo que não vou sair do seu lado. Quando você acabar de morrer, eu conto tudinho.

– Só se você morrer também, já que não pretendo voltar nunca mais.

– Puxa… Então tá, me espera só um pouquinho que já vou morrer outra vez e aí a gente segue juntos papeando lá pro céu. Tchau!

Desenho: Flávio Wetten

Três contos curtos

Foto: Carlos Emerson Junior

Dia de eleição

Saiu para votar desanimado, só por obrigação. Na esquina da zona eleitoral viu um botequim aberto, servindo cerveja. Lembrou da Lei Seca, que proibia a venda de bebidas alcoólicas durante a votação. Uma bobagem, claro, políticos sempre fizeram muito pior e todos os dias. Parou na porta do estabelecimento, examinou o lugar, entrou, foi até o balcão e pediu uma long neck e um pastel. De queijo.

Pagou, tirou a tampinha da garrafa e foi votar. Com a mão esquerda segurava a bebida e com a direita comia o salgado. Na porta da seção eleitoral, bem ao lado, um polícia o olhou com a cara feia e sentenciou: termina de comer aí fora e depois entra. Ia discutir, criar um caso, chamar o juiz, o padre, o papa e o presidente, não necessariamente nessa ordem mas, pensou bem, deu um até logo para a autoridade e tomou o rumo de casa. Depois justificava a ausência.

A rosa do Rio

Parou no sinal para atravessar a avenida e, sem mais nem menos, veio à sua cabeça o verso “pensem nas crianças mudas telepáticas”, do Vinícius de Moraes. Ficou cismado e puxou o seguinte: “pensem nas meninas cegas inexatas”. Nossa, aí veio o resto com música e tudo, “pensem nas mulheres rotas alteradas, pensem nas feridas como rosas cálidas”.

Caramba, o povo já estava do outro lado da rua e ele parado debaixo do sol, suando como um estivador, com a “Rosa de Hiroshima” na cabeça. Aí se tocou que era isso, o sol, o calor, a luz quase branca que tomava conta do centro da cidade. Dava até para imaginar, que mané imaginar nada, sentir mesmo, como os japoneses receberam os no corpo os primeiros efeitos da bomba atômica.

Pois é, um exagero, claro, mas se servia de consolo, a Rosa do Rio era apenas isso, calor tropical. Não matava ninguém, pelo menos não na hora. Olhou o relógio, percebeu que estava atrasadíssimo para a audiência e atravessou a Rio Branco no meio de carros, motos e ônibus. Isso sim, um perigo!

Voo noturno

“É claro que posso contar o que aconteceu ontem à noite, senhor. Saímos da empresa para o Santos Dumont por volta das oito da noite. Eu, o motorista Joel e, é claro, o Dr. Alfonso e a secretária, Dona Morena. O chefe ia para uma reunião em São Paulo e, curiosamente, resolveu viajar pela ponte aérea. Sim? Não, ele sempre vai de jatinho mas ontem, sei lá, disse que estava com vontade de ver gente e dispensou a aeronave e o piloto. Comprei sua passagem no balcão da empresa aérea para o voo das nove da noite. Enquanto isso o Dr. Alfonso e D. Morena tomavam um café. Juntei-me a eles e avisei o pessoal para aguardá-lo em Congonhas. Por volta das oito e trinta o chefe foi para o embarque, esperamos o avião decolar e voltamos para o escritório. D. Morena foi para casa e eu fiquei por lá mesmo, aguardando notícias. Eram umas dez e meia quando o Rubão me ligou, nervoso, querendo saber porque o Dr. Alfonso não tinha viajado. Como assim, bebeu, Rubão? Imediatamente liguei para o celular do chefe mas nada, ligação fora do alcance. O restante o senhor já sabe, policial: o avião pousou normalmente e todos os passageiros saíram, menos o Dr. Alfonso. A polícia paulista revirou a aeronave, interrogou a tripulação, checou as câmeras do aeroporto e nada, o homem sumiu. Aqui, no Rio, também nada anormal foi encontrado e as câmeras do Santos Dumont mostram que ele embarcou naquele voo. Embarcaram 90 pessoas e exatas 90 pessoas desembarcaram, menos o Dr. Alfonso. Até hoje, dois dias depois, nenhum sinal, pedido de resgate, nada. Vimos os vídeos do desembarque diversas vezes, de várias formas e em nenhum deles não havia uma pessoa sequer parecida com o chefe. O que mais intriga é que ele não tinha inimigos, sequer seu cargo era considerado vital na empresa. Não passava de uma pessoa comum, de meia idade, cara de avô, discretíssimo e de pouquíssimas palavras. Fico lembrando que ele chegava a passar desapercebido no local de trabalho. Sei não, policial, de repente, para uma pessoa assim, deve ser fácil desaparecer, não é mesmo? Caramba, nem consigo imaginar como sua família está sofrendo.”

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Saiu da delegacia exausto e arrasado, mas ainda tinha esperanças. Até então, jamais passaria por sua cabeça que aquela noite no Santos Dumont foi a última vez que viu o Dr. Alfonso.

Voto de cabresto

Foto: Carlos Emerson Junior

O que tem em comum o Brasil, Argentina, Bolívia, Congo, Equador, Egito, Fiji, Líbano, Líbia, Nauru, Paraguai, Singapura, Tailândia, Turquia e mais outros seis países? O voto obrigatório, uma excrescência adotada por aqui em 1932, durante a ditadura Vargas. Em contrapartida, em 236 repúblicas democráticas, o voto é facultativo. Isso quer dizer que nossa “elite” política acredita que ainda não sabemos votar. Pode até ser, mas eles também não sabem governar…

Na última eleição, mais de 1.800.000 cariocas não apareceram nas zonas eleitorais para cumprir sua “obrigação”. Junto com a turma que deixou em branco ou anulou seu voto, quase 40% dos eleitores do município deixaram um duro recado aos partidos e suas indicações desastrosas para disputar um cargo tão importante como a prefeitura carioca.

No fim o pior quadro prevaleceu e como a disputa ficou entre um bispo evangélico e um messias do PSOL, tenho quase certeza que os números da final do dia 30 serão bem maiores e mais contundentes. Tomara (que ingenuidade) que desta vez os “caciques” aprendam alguma coisa.

A propósito do título desta crônica, voto de cabresto é uma antiga expressão surgida no interior do Brasil, ainda na República Velha, onde o controle do poder político é feito através do abuso de autoridade, compra de votos ou utilização da máquina pública. Ou seja, o fazendeiro, coronel, prefeito ou raio que o parta colocava uma turma de peões num caminhão até a urna eleitoral e todo mundo tinha que votar no candidato que ele determinasse.

Ah, mas o voto eletrônico acabou com isso! Acabou? Aqui mesmo, no Estado do Rio, milicianos e traficantes desafiam o Tribunal Superior Eleitoral e chegam ao ponto de proibir a entrada e campanha eleitoral de candidatos “inimigos”, digamos assim, nas comunidades sob sua “influência”. Aliás, segundo o ex-ministro e ex-presidente do TSE Carlos Ayres, a milícia sempre afirmou que “a urna eletrônica não ofereceria essa transparência que se faz necessária e que seria possível saber quem votou em quem, como modo de inibir o voto livre e consciente”.

Pois é, voto livre e consciente. Como falar nisso se grandes regiões da cidade não são permitidas a qualquer um? Não adianta tapar o sol com a peneira, já diziam os antigos, a cidade foi partida, dividida e todo mundo faz de conta que não viu, que não tem nada a ver com isso. Os moradores (e quanto mais pobres pior), são os que mais sofrem. E ainda querem falar em voto útil, voto no menos pior, voto consciente, voto cidadão e outras babaquices?

Tenham dó!

Voto obrigatório é voto de cabresto. É a oficialização do coronelismo, é uma invenção de regimes ditatoriais, ultrapassados. O dia que o candidato tiver que seduzir o cidadão para sair de casa e ir até a urna eletrônica digitar seu voto, aí sim, teremos dado um enorme um passo na direção da verdadeira democracia. Porque o que existe hoje não passa de uma oligarquia. Da época de Vargas.

Em tempo, não sou candidato a nada.

Legado

Foto: Carlos Emerson Jr.

Essa palavrinha aí do título, muito usada nos últimos meses para justificar o mega investimento feito pelos governos estadual, federal e municipal na cidade do Rio de Janeiro nos últimos dois anos, tem vários significados, segundo o dicionário Caldas Aulete: “qualquer coisa, conhecimento ou bens materiais ou culturais, que se transmite às gerações seguintes”; “quantia ou bem predeterminados que alguém deixa por testamento” e por aí vai.

Pois muito bem, legado é isso, alguma coisa que você deixa em beneficio de terceiros. Geralmente é uma coisa boa mas pode ser um verdadeiro “presente de grego” se faltar um pequeno detalhe que é exatamente o tema dessa crônica e foi ignorado por todas as autoridades envolvidas nos dois eventos, a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos: uma boa e velha dose de sinceridade.

– Eu acredito que nós teremos uns Jogos Olímpicos que vai ter uma qualidade totalmente diferente e que vai ser capaz de deixar um legado tanto… porque geralmente as pessoas pensam: ‘Ah, o legado é só depois’. Não, vai deixar um legado antes, durante e depois. (Dilma Rousseff, ex-presidente do Brasil);

– O Jogos vão deixar um legado para o Rio de Janeiro de novas instalações esportivas para os atletas e para a população. A Olimpíada vai deixar um legado de transporte até para as proximas gerações. Em apenas sete anos, o número de pessoas com acesso a transporte público aumentou muito, de 16% em 2009 para 63% agora. Esses Jogos vão deixar o maior legado desde Barcelona 1992 (Thomas Bach, presidente do COI).

O legado acabou sendo o descalabro, o caos que estamos vivendo na cidade e no estado do Rio de Janeiro. A violência, contida por tropas de elite do exército, marinha e da força nacional, desandou de vez com a sua retirada. A bandidagem, evidentemente reprimida durante dois longos meses, voltou para as ruas com força total e, para agravar o quadro, o governo do estado decretou falência.

Nessas horas, concordo com o desabafo da jovem Daiene Mendes, correspondente do jornal britânico The Guardian, no seu ótimo artigo “Jogos Olímpicos do Rio: A visão das favelas“: espero que os jogos olímpicos acabem logo. Porque de legado, eu só vejo repressão, militarização e guerra. Está na hora de acabar.

Pois é, a cidade do Rio de Janeiro é grande, espraiada, como gostam de dizer os urbanistas e completamente desigual. Turistas do mundo inteiro flanando na Barra e na zona sul e as comunidades da zona norte e oeste sendo barbarizadas pela bandidagem de sempre. Normal, diriam os cínicos. Porque seria diferente durante um evento internacional?

O que mais dói é que, no fundo, tínhamos a esperança que o Rio se transformasse, de uma vez por todas, na Cidade Maravilhosa da marchinha. Afinal, a presidente, o governador e o prefeito garantiram isso. Abrimos mão de mais de 40 bilhões de reais, que deveriam ter sido destinados para a saúde, educação e transportes e foram torrados num evento caríssimo, eleitoreiro, que durou duas semanas.

A festa acabou, meu irmão. Descobrimos que continuamos pobres, quem ganhou, faturou muito e quem perdeu, quase todos nós, já era. Meu pai dizia que só ia acreditar que o Brasil estava mudando no dia que um político prometesse e deixasse algum legado efetivamente útil para a população. Que pena, ainda não foi desta vez.

Um lindo dia

Caminhava tranquilamente pelo badalado Boulevard Olímpico, no centro do Rio. Absolutamente nada para fazer, nada para se preocupar e, até mesmo, nada a temer. O dia lindo, explodindo de azul, até permitia que ele contemplasse, admirado, os armazéns, sobrados e igrejas que a antiga Perimetral escondera durante tantos anos. Mas o melhor de tudo era a sensação de liberdade, poder circular pra cá e pra lá como uma pessoa qualquer.

Os últimos três anos, trancado no presídio, foram a gota d’água. Sabia que não teria outra oportunidade de mudar de vida, de cidade ou até mesmo de país. Além do mais estava ficando velho e muito manjado. O importante agora era ficar longe das confusões, dos cambalachos. Como sobreviveria depois de tanto tempo aprontando era uma incógnita mas, enfim, a gente acaba dando um jeito.

Perto do Armazém da Utopia foi abordado por uma patrulha da polícia: – olha só quem está aqui, o famoso Zé das Couves. Cidadão, parado, abra as pernas e levante os braços, vamos revistar. Não acreditou no que estava acontecendo, só podia ser um pesadelo. Caramba, tinha acabado de receber a condicional e saído da prisão não tinha nem um dia, tentou explicar, mas foi abruptamente cortado:

– Cidadão, entender eu entendo, mas não importa. Assaltaram um grupo de turistas aqui na região, o prefeito ligou furioso, a imprensa está caindo em cima e o delegado mandou pegar os suspeitos de sempre. Resumindo, você perdeu. Entra na viatura e não enche o saco!

O dia bonito, de repente, acabou.

Fora do ar

Li em algum lugar, não me lembro onde nem quando (coisa comum com a quantidade de informações à disposição na rede) que o governo americano está preocupado com a posição dos submarinos da marinha russa, próximos aos cabos marítimos de comunicações, aparentemente para cortá-los no caso de uma guerra, provocando o caos entre seus inimigos.

A bem da verdade, é preciso ficar com um pé atrás. Quem garante que a marinha americana não faz a mesma coisa? Afinal, não por acaso os dois países protagonistas da extinta (?) guerra fria possuem as maiores frotas de submersíveis do planeta. Notícia plantada ou não, uma ação dessas poderia provocar até uma reação nuclear e, por isso, é difícil não acreditar que eles não tenham um plano B, ou melhor, um meio de comunicação alternativo para esse tipo de agressão.

De qualquer maneira, existe um lado bom. Passamos (a minha geração, claro) os anos 60, 70, aguardando o momento que seríamos reduzidos a pó (ou nem isso) por centenas de mísseis balísticos com armas nucleares, lançados de submarinos espalhados pelos sete mares. É bom (sempre) lembrar que o arsenal atômico (ainda) tem capacidade para destruir nosso planetinha umas dez ou vinte vezes… Mas divago, não é mesmo? O lado bom é que desta vez só ficaremos sem a internet, não seremos exterminados.

– Como assim, sem a internet? Pirou? Isso é o próprio apocalipse!

Pois é, a turma mais plugada entra em pânico só de pensar numa tragédia dessas mas, convenhamos, se não houver reação militar, sua falta não será nenhum Armagedom, como os profetas interneticos proclamam em alto e bom som. Muito pelo contrário, recentes estudos (também não perguntem quais, consultem o Google) provam que ir ao banco, ler jornais de papel, frequentar bibliotecas, pagar com dinheiro vivo ou cheque e telefonar para os amigos, por exemplo, são atividades esquecidas mas que – atenção – não causam nenhum dano à nossa saúde.

Aliás, vale conhecer a saga do jornalista alemão Paul Müller, que ficou um ano sem usar a internet! Apesar da postura antissocial, crises de depressão, sete quilos perdidos e, pior, não ter vivenciado nenhum “momento epifânico” (seja lá o que isso signifique), garante nunca mais embarcar numa furada dessas. Mesmo financiado! Conheça melhor essa incrível aventura aqui (inglês) e aqui (português).

Pois é, meus caros, já ia colocar o ponto final na crônica quando percebi que não falei nada do Brasil. Nossa internet é uma unanimidade, ninguém gosta. Lenta, errática, cara prá burro, isso quando não desaparece repentinamente, sem aviso prévio ou desconto na fatura (essa sim, com eficiência de primeiro mundo). Decididamente acho que não corremos o risco de um ataque estrangeiro em nossos cabos, a não ser que…. Bom, estamos construindo um submarino nuclear, com tecnologia francesa, que deve ser lançado ao mar em 2021. Vai que uma dessas superpotências ache que somos um perigo em potencial! Aí danou.

Perereca peçonhenta, a entrevista

Foto: Carlos Emerson Jr.

Encontrei a professora C. na dispersão do bloco carnavalesco “Perereca Peçonhenta”, bem em frente a Alerj, no Centro do Rio. Foi fácil identificá-la no meio de tanta gente animada: era a única mulher fantasiada de político ou seja, terno escuro, gravata, camisa social branca, peruca de careca e um par de tornozeleiras eletrônicas!

Antes de mais nada, é bom deixar bem claro que a entrevistada pediu anonimato completo e por esse motivo só posso adiantar que ela possui mestrado em ciências políticas e sociais, é escritora, trabalha em uma universidade federal, publicou vários livros e escreve em jornais do Rio e SP. Apesar de meu receio de abordar assuntos “sérios” em pleno carnaval e logo após o desfile de um bloco de rua, não tive outra alternativa. A entrevista foi gravada em um café da Rua da Carioca.

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Professora, todos os políticos deveriam usar tornozeleiras eletrônicas? Ou isso daria margem para montar outro esquema de superfaturamento para financiar partidos políticos?

Meu filho, você bebeu? Porque eu bebi todas, misturei cerveja com vodka, caipirinha com rum, cachaça com o diabo a quatro e juro que jamais pensaria uma merda tão grande como essa. Isso aqui é só uma fantasia, porra!

Perdão, professora, é que eu achei….

Não, você não tem que achar nada. Estude, pesquise ou leia antes de questionar quem quer que seja. E outra coisa, não me chama mais de professora, esse título nessa pocilga não vale nada! Aliás, só continuo a entrevista se você pedir uma cerva.

Tá bom, já providenciei, mas vem cá, até a senhora concorda que a situação geral do Brasil está muito estranha… ou não?

Estranho é você que me tirou do bloco prá falar… falar de quê, mesmo? Ah, sim, já sei, a crise econômica e política que parou nosso país, não é mesmo? Pois bem, vou dizer com toda a sinceridade, tô nem aí! Sério! O que você quer? Um país que a cada quadriênio coloca um bestalhão na presidência, uma gente que não sabe sequer escolher um prefeito, vereador, um síndico que seja, esperar o quê? Somos uma república senhorial, monárquica, onde a nobreza é escolhida pelo povo com todos os poderes. O poder emana do povo, mas quem manda são os políticos.

Pois é, e aí fica a pergunta, qual o futuro do Brasil?

Ah, mas se depender da sua criatividade, o Brasil não tem futuro nenhum, não é, meu filho? E eu sei lá o futuro de alguma coisa? Entrevista uma cartomante, um vidente, um profeta. Isso dá audiência. Você sabe que o sonho do brasileiro é um emprego público, em qualquer lugar, com qualquer salário. Você mesmo tem cara de quem trabalha prá Agência Nacional, ou coisa parecida. Mas já que a cerveja chegou, vou tentar responder: não tem, simples assim. E sabe porque? Porque somos poucos, a educação é precária, a inclusão social nunca vai acontecer e a população está envelhecendo. Dentro de mais alguns anos teremos mais brasileiros idosos do que jovens disputando o mercado de trabalho e aí, danou, vão encher o país de chineses, indianos e indonésios para tocar a economia. Ou argentinos, bolivianos e venezuelanos, se o a turma atual ainda estiver no poder. Que futuro legal, né?

Não acho não, é horrível! Sei não, professora, que tal deixarmos essa entrevista para depois do carnaval?

Tá maluco? E eu lá tenho lá saco para te aturar outra vez? Negativo, trata de publicar isso o mais rápido possível e na íntegra, senão acabo com sua raça lá na Agência Nacional! Aliás, você tem jeito de ser o assistente do estágiário, sabia?

Além do evidente bullying, de onde a senhora tirou que sou funcionário do governo?

Já sei, já sei, é freelancer, blogueiro ou o raio que o parta. Afe, que falta de humor! Enfim, voltando ao nosso futuro, a desgraça é tão completa que nem chamando os velhinhos aposentados de volta vai dar algum resultado, porque a elite, os pensadores, a intelligentsia, foi embora ou então se acomodou, desistiu, cansou, morreu. Eu é que fui burra, acreditei que ia participar de uma revolução, acreditei no lero-lero desses escrotos corruptos e aqui estou, presa até o último fio de cabelo numa universidade falida, que não tem dinheiro para o papel higiênico. O pior é que aí me lembro que não casei, não namorei e se dei até já esqueci prá quem, mas estudei prá car… burro prá isso, gravar uma entrevista na segunda de carnaval. Pede outra cerveja aí, vai.

Claro, professora…

E tem mais, você falou no telefone que não gosta de carnaval. Então, saiba que o Graciliano Ramos, escritor famoso, falecido no meio do século passado, tem uma frase sensacional, presta atenção: se a única coisa que o homem tem certeza é a morte, a única certeza do brasileiro é o carnaval do próximo ano! Cacete, ele desvendou a nossa alma, o nosso pathos. De fato, o carnaval é a redenção do país, a grande válvula de escape, quando vamos para a Sapucaí bater palmas para as escolas feitas por gente que não pode ou ousa frequentar um restaurante chique no Leblon. Uma festa onde brancos e pretos pulam lado a lado em blocos conduzidos por petralhas e coxinhas, ricos e pobres, ladrões e mocinhos, famosos e fudidos. Ouso dizer que o carnaval é o nosso momento Noruega, é, Noruega, aquele país do norte, chato e frio, onde todo mundo é igual, tem os mesmos direitos, índice social altíssimo e nenhuma corrupção. Carnaval nos une, mesmo quando pentelhos vem com discursos de alienação e outras babaquices mais. Quer saber de uma coisa? Acabou a entrevista! Tem um bloco alternativo se concentrando na Gamboa e vai desfilar no Porto Maravilha logo que anoitecer, uma novidade. Vou prá lá agora. Se você quiser pode vir junto, já te aguentei até agora, no bloco a gente se esbalda e pode até ser que você entenda tudo o que coloquei. Aliás, mais uma cerveja e não vou nem lembrar que dei essa entrevista. Vai ou fica?

Fazer o quê, vou né? De repente consigo arrancar mais alguma coisa da eminente mestra!

Mas você é abusado mesmo, putz! Alala-Ô, ÔÔÔ, ÔÔÔ, mas que calô, ÔÔÔ, ÔÔÔ, atravessando o deserto de bangú, o sol estava tão quente que queimou o…. Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é???? Ah, e ainda tem… as águas vão rolar, garrafa cheia eu não quero ver sobrar, eu passo a mão na saca, saca, saca-rolha e bebo até me afogar!!!

Pô, professora, essas músicas são do meu tempo!

Olha o respeito, menino!

Água

“A água de boa qualidade é como a saúde ou a liberdade: só tem valor quando acaba.” (Guimarães Rosa)

Eu era criança, talvez com uns oito ou nove anos. Morava com meus pais e minha irmã em Copacabana, no Rio, a uma quadra da praia. Um bom apartamento, um bairro grande mas ainda não superlotado, transporte e comércio na porta, escolas públicas com vagas. O Rio ainda era o Distrito Federal, a capital do Brasil.

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