O concerto de Mahler

Foto: Markus Moellenberg

Do nada, sentiu-se inspirado. Foi até o porão, revirou algumas caixas e encontrou uma antiga partitura musical com um samba do Wilson das Neves para piano e, melhor ainda, uma estante para partituras, esquecida ali sabe-se lá por quem. Talvez alguma amiga de uma de suas filhas. Sacudiu a poeira, levou tudo para a sala e, carinhosamente repousou a partitura na estante, como sempre devia ser. Beleza.

Selecionou uma música no Spotify. A Sinfonia nº 1 de Gustav Mahler, a Titã, que adorava. Colocou o fone no ouvido, pegou a batuta, ou melhor, o pincel da paleta de pintura da mulher, olhou fixamente para a orquestra, digo, a coleção de bichos de pelúcia da filha mais nova, apertou o play e, aos primeiros acordes do primeiro movimento, levantou o braço, cerrou os olhos e começou a reger os seus quase 50 músicos.

As notas musicais, intrincadas, vinham de longe e provocavam uma sensação de quase arrebatamento. O que uma música bela, suave e envolvente não faz… Estava dentro de uma sala de concertos, na frente de uma plateia que ouvia sua sinfônica com um silêncio além do respeitoso. Naquele momento era só ele e Mahler, quase uma epifania.

Quando se preparava para encerrar o movimento, ouviu um ruído diferente, dissonante, alto e completamente inoportuno. Um telefone tocando! Como assim, quem seria o mal-educado que deixara o aparelho ligado no meio de um concerto? Virou-se furioso para o público e deu de cara com o quadro da Glorinha, uma paisagem rural, pendurada em cima da lareira. Como assim?

O toque continuava, insistente e só então caiu em si: ele mesmo esquecera de colocar o infeliz do celular em modo avião. Sem sequer olhar o display, atendeu ríspido:

– o que foi?

– é o senhor Carlos que está falando?

– é!

– aqui é o Eduardo, da sua empresa telefônica, para apresentar uma enorme vantagem para os nossos queridos clientes. O senhor teria um minuto?

– não, não tenho, não quero ter e tenho raiva de quem tem. Vá pra…

Desligou desolado. Na sua frente uma estante com uma partitura de samba, um pincel de pintura, uns dez bichinhos de pelúcia e um smartphone ligado aguardavam suas ordens. Infelizmente o encanto havia passado. Sentiu-se ridículo, mais ridículo até que o eduardo da telefônica. Não, não dava mais para ficar ali. Foi até o banheiro, colocou short, camiseta, boné, calçou o tênis e saiu para dar uma corrida no parque próximo. No mínimo, ia esfriar a cabeça. No máximo, talvez conseguisse quebrar um recorde do Emil Zátopek, a “Locomotiva Humana”, um dos maiores corredores da história.

Já estava animado outra vez.

O som da vitrolinha

“Vamos ser realistas: o vinil não renasceu, há poucas pessoas ouvindo esses discos. O vinil depende do petróleo para a sua produção, então não há justificativa para que ele volte. Mas os Lps ainda soam maravilhosamente bem. Os CDs têm um som aceitável, mas só se forem bem produzidos. E o som dos MP3s também passa, não é nada de mais. Quando comecei a minha carreira, nós ouvíamos música pelo rádio, e era sempre ruim. Nossas primeiras vitrolas eram uma porcaria, e aí os discos também não soavam bem. Mas era a música que importava – procurá-la, encontrá-la, tomar posse dela. E a tecnologia fez com que isso ficasse muito melhor hoje.”

Com essas palavras, Pete Townsend, o eterno guitarrista do The Who resumiu a relação da música (principalmente o rock) com os meios físicos para ouvi-la, a partir dos anos 60. A propósito, meu primeiro disco foi um compacto simples dos Beatles, que toquei à exaustão numa vitrola semiportátil Emerson (nada a ver comigo, por favor), verde e branca e com um som de vitrolinha mesmo.

Poucos amigos tinham em casa um aparelho de som de qualidade, os famosos Hi-Fi (High Fidelity), como dizíamos à época. E mesmo assim, ainda havia o problema do vinil, eternamente de baixa qualidade em nossa Terra Brasilis. Até hoje lembro de minha surpresa quando fui apresentado a um LP “Made in England”, de um colega de escola. Aquilo era inacreditável!

A evolução do rock, de uma certa maneira, acabou provocando uma reação da indústria de áudio e, de repente os equipamentos de som era tão importantes quanto a música. Aliás, acho que foi nessa época que surgiram os chamados “audiófilos”, pessoas fanáticas por som, inclusive, acima da própria música.

Eu mesmo cheguei a ter em casa uma parafernália enorme com duas loudspeakers gigantescas, pré e power amplifier, tuner FM, belt-drive turntable com capsula Shure, tapedeck Dolby e, é claro, headphones. Tudo em inglês, por favor. Mas nem tudo eram flores: A vizinhança vivia reclamando da altura do som e os preços dos equipamentos, importados nem Deus sabe como, eram estratosféricos.

Bons tempos, mas sinceramente não sei se tenho saudades. A tecnologia avançou de tal modo, que hoje nem me dou mais ao trabalho de baixar ou comprar um arquivo de música digital. Simplesmente assino serviços de música streaming, ou seja, por um valor mensal bem baixo, tenho acesso pelo computador, tablet ou smartphone a milhões de canções de todos os gêneros possíveis.

E tem mais, posso montar coleções e playlists e ouvi-las offline pelo smartphone, principalmente quando estou caminhando ou correndo. O mais bacana é que consegui, finalmente, recuperar discos que mal tinha ouvido nos anos 60, verdadeiras raridades que sumiram completamente do catálogo das gravadoras. Resumindo, voltei a ouvir música como fazia nos anos 60, mas com alguma educação musical e um acervo gigantesco à disposição.

Tenho pesquisado muito as primeiras gravações de bossa nova de artistas brasileiros e estrangeiros, um gênero que abominava na época! Descobri algumas pérolas de Odete Lara, Maysa, João Donato, Baden Powell. Voltei a ouvir Chopin, Debussy, Mozart, Beethoven. E ter à mão gente como Oscar Peterson, Bill Evans, Dave Brubeck, Keith Jarret,John Coltrane e tantos outros é simplesmente o máximo.

O streaming é isso, um tipo de rádio com muita música o tempo todo. Será a mídia “física” do futuro? Ou já é a do presente? Afinal, a venda dos CDs físicos caiu, as lojas de discos acabaram e, efeito colateral dos mais positivos, os artistas começaram a correr o mundo para divulgar, ao vivo, seus trabalhos.

De qualquer maneira, é sempre bom ter em mente que o que realmente nos toca é a música em si, mesmo que para ouvi-la precisemos de uma antiga vitrolinha dos anos 60. Ou até um gramofone do final do século 19. Vai saber…