Andando por aí

Foto: Carlos Emerson Junior

“Caminhar pela cidade é uma forma de mobilidade urbana. Caminhar pelas calçadas e ruas da cidade deixando o olhar se perder entre as frestas de céu que edifícios, casas e árvores deixam entrever. Tomar cuidado com o buraco da calçada e não perder de vista o fluxo incessante de pessoas e as milhões de oportunidades de observação do inusitado, do espontâneo e do não-programado. Chegar onde se deseja, sem deixar escapar da vista o caminho.”

Pois é, o Mobilize e O Aprendiz estão aí para nos lembrar que andar a pé é a maneira mais simples e barata de ir do ponto A até o B ou, simplesmente, passear sem rumo. Concordo e confesso, é a minha maneira favorita de me deslocar, principalmente numa cidade fotogênica, calma e com clima amigo como Nova Friburgo. Pena que as calçadas ainda não são bem cuidadas, mas a gente chega lá.

Encontrei e fotografei essa caixa de correio andando ao acaso em uma rua do Vale dos Pinheiros, um bairro residencial muito bonito, que só pode ser apreciado a pé. Aproveite os dias ensolarados na serra, coloque um tênis e caminhe. A cidade pede para ser descoberta.

Carta aberta à Faol

Um dos muitos motivos da compra do meu apartamento no Sans Souci, no final da década de 90, era a linha que a Faol operava, ligando as Braunes à antiga Rodoviária de Integração, a cada 40 minutos. Os ônibus meio antigos, geralmente mal conservados, cumpriam o horário britanicamente, sem o menor atraso.

E não ficava só nisso: uma vez pela manhã e outra no final do dia, o ônibus subia o Alto do Sans Souci. Além disso, quando a Estácio de Sá trouxe sua Universidade para cá, criaram uma linha direta com uma ou duas viagens à noitinha, para atender alunos, funcionários e professores. Resumindo, você não precisava usar o carro para ir ao centro, evitando estacionamentos, engarrafamentos e, é claro, diminuindo a poluição atmosférica. A linha 101 estava ali para isso mesmo e funcionava bem.

O tempo passou, a Faol, uma empresa friburguense foi vendida para uma famosa empresa carioca, parece que não deu certo e passou para as mãos de um consórcio de empresas da Baixada Fluminense e do Rio. Chegou cheia de moral, colocou nas ruas 30 ônibus novos, todos climatizados mas, infelizmente, acabou com a linha das Braunes. Aliás, vamos ser justos, de uma só tacada prejudicaram também os moradores do Tingly.

Voltei a morar em Friburgo no dia 16 de novembro do ano passado. Quando fui descer para o centro, levei um susto! O pessoal do condomínio me avisou que o horário dos ônibus havia mudado e o intervalo agora era de inacreditáveis 70 minutos, uma hora e dez minutos, um verdadeiro absurdo, com danosas consequências para a população residente e trabalhadora!

Como se programar diante de uma espera de uma hora e dez minutos? Como ficam os passageiros que vem de outros bairros e precisam trocar de linha, fazer baldeação? Com certeza vão pagar duas passagens. Muita gente tem descido e subido a pé, uma maldade já que as ruas das Braunes são, basicamente, ladeiras íngremes. E nos dias de chuva, como fica? Chama um táxi? Tira o carro da garagem? Então para que servem os ônibus?

Senhores responsáveis pela Faol, fica o apelo para o modelo atual seja revisto e alterado. Agradeço antecipadamente a atenção.

Foto: Thiago Silva

A torre

Foto: Carlos Emerson Junior

Aquilo não podia ser normal. Desde criança, pequeno mesmo, sempre que passava pela torre onde ficava a caixa d’água, parava bem embaixo e ficava olhando para cima, para o topo, querendo adivinhar se algum dia conseguiria a subir até o alto para ver como era o mundo lá do alto.

A medida que ia crescendo, a curiosidade aumentava. Entrar na torre não era tarefa simples. Seus pais, já sabendo da esquisitice, alertaram os funcionários do condomínio para não ficarem de olho: qualquer bobeada e o menino era bem capaz de se mandar escadaria acima.

Secretamente traçava planos para “tomar de assalto” a torre da caixa d’água. Percebeu que à noite, depois que os empregados iam embora, o único impedimento era a porta de acesso ao alojamento e depósito, que ficava na sua base e dava acesso à escadaria, devidamente trancada.

Uma vez tentou: escalou o muro que cercava o condomínio (aproveitando escada de pedreiro esquecida), passou para o teto do cômodo de baixo, olhou para os lados, lembrou da avó e se benzeu, colocou o pé direito no primeiro degrau, segurou com força a lateral, tomou impulso e começou a subida. Mal chegou no terceiro degrau ouviu o grito agudo e imperial da mãe! Pulou fora, em pânico, e só não levou uns cascudos porque sua bendita avó não permitiu.

O tempo passou, a faculdade o formou, uma moça com ele se casou, para uma outra cidade se mudou, uma filha chegou . No entanto, lá longe, nas imagens esquecidas da infância, a torre continuava lá, enorme, inexpugnável, desafiando as alturas, chegando ao céu, a grande aventura proibida. Quando sua mãe faleceu, após o sepultamento e a reunião com os parentes, caminhando pelo velho condomínio onde brincara tanto, deu de cara com ela, desafiadora.

Nunca se soube o que passou pela sua cabeça. Com um pulo, subiu o muro, saltou para a base da escada e, rápido como um raio, subiu com o olhar fixo nos degraus até chegar ao topo, a parte de cima do reservatório de água. Ficou em pé e olhou em volta. Era alto, mas a paisagem, cheia de ruas e casas, era completamente diferente do que esperava encontrar, a grande mata que existiu em algum momento dos anos 80.

Sentou, acendeu um cigarro e foi tomado por uma sensação de alívio. De alguma maneira, tinha exorcizado um fantasma do passado. Um fantasma bobo, é verdade, mas sempre um fantasma. Alguns minutos depois, lembrou-se que a vida continua e resolveu descer. Uma pena que não era uma criança. Teria sido muito mais divertido.

Falando de incêndios

Bombeiros, voluntários e a chuva impediram uma tragédia em Nova Friburgo. O incêndio do Morro da Cruz chegou perto do Colégio Anchieta e da Fundação Getúlio Vargas, além de ameaçar residências. Os danos foram enormes, inclusive a triste e lamentável destruição da flora e da fauna. Sua recuperação levará anos e vamos torcer para que as chuvas de verão não levem abaixo o que restou dos morros.

A questão agora é pensar na prevenção e na punição dos responsáveis, seja por ação ou omissão. A Lei 9.605, promulgada em 12 de fevereiro de 1998, em seu Capítulo V, seção II, artigo 41, afirma que provocar incêndio em mata ou floresta tem como pena a reclusão de dois a quatros anos e multa, ou se o crime for considerado culposo, pena de seis meses a um ano, mais a multa.

Tenho visto esses incêndios nas matas friburguenses desde que vim para cá, no final dos anos 90. Todo mundo concorda que eles assustam, poluem, destroem e colocam vidas em risco. O problema é que, passada a temporada do fogo, o assunto morre e fica tudo por isso mesmo, isto é, nenhuma investigação e muito menos qualquer punição, nem um multinha sequer. Por que? Onde estão as campanhas de conscientização, de educação? Cadê a fiscalização?

Não, meus caros, se não unirmos nossa indignação, vamos simplesmente esperar a possível tragédia de 2018, 2019, 2220 e por aí vai. Diversas prefeituras pelo Brasil afora tem seu plano de combate ao incêndio florestal. Não seria interessante saber como eles fazem? Nossa cidade e sua natureza é muito valiosa para desistirmos sem luta. O Corpo de Bombeiros está de parabéns pela presteza, coragem e determinação mas, sem apoio, terá cada vez mais dificuldades para impedir uma tragédia. E tragédia, meus caros amigos, já tivemos bastante.

Fotos: Antonio Varella, Osmar Castro, Adriana Oliveira, 6º GBM e A Voz da Serra

Onça-parda

“Acordou inquieto,
no meio da noite.
Seria sede
ou um maldito inseto?”

Por algum motivo não conseguia dormir direito. Inquieto, virava de um lado para o outro da cama e o sono ia e vinha intermitente, como se alguma coisa angustiante estivesse acontecendo. Sentou-se, olhou com inveja a mulher roncando suavemente e resolveu ir ao quintal beber um pouco de água. Abriu a porta de casa e foi até a torneira da fonte. Estava escuro mas o brilho das estrelas indicava o caminho. Privilégio de quem mora na roça, pensou. O ar gelado, típico da serra, incomodamente o abraçou.

Encheu a caneca e, quando ia beber, notou o vulto escuro sentado junto à cerca. Primeiro pensou que fosse o maldito sono voltando mas, o tal vulto virou a cabeça e o olhou com dois olhos brilhantes, hipnóticos. Jesus Cristo, aquilo era uma… uma onça-parda! E das grandes! E estava vindo! Tentou gritar, mas a voz não saiu. O felino já estava tão perto que podia sentir o bafo da respiração. Em pé estava, em pé continuou. Parado. Estático, aterrorizado e segurando uma caneca com a água da fonte.

O animal se aproximou, rodeou seu corpo, cheirou suas pernas, deitou-se bem na sua frente, abaixou a cabeça e cerrou os olhos. Sem pensar, abaixou-se devagar e pousou a caneca no chão. A onça levantou a cabeça e, para sua surpresa, bebeu toda a água. Caramba! Lentamente esticou o braço e abriu a torneira da fonte. A água pura e gelada jorrou no chão. A onça foi até a bica e bebeu como se não tivesse amanhã. Satisfeita, deu a volta e foi andando na direção da cerca. Lá, pulou com agilidade e desapareceu no meio da noite.

Incrédulo, voltou atarantado para dentro da casa e foi para o quarto. Ia acordar a mulher mas estava com tanto sono que só teve tempo de pensar que talvez fosse melhor deixar essa história para o dia seguinte. Encostou a cabeça no travesseiro e dormiu. Se sonhou com onças ou com as estrelas, nunca saberemos, mas seu rosto era pura felicidade. Coisa de sonhadores, sabe?

oOo

Foto automática de trilha feita em Cordeiro, RJ, na Mata da Pena, por uma câmera da UPAm (Unidade de Policiamento Ambiental) do Parque Estadual do Desengano, na madrugada do dia 12 de agosto de 2017. (Juliana Scarini, G1)

Um lugar

Quando você andar por uma rua qualquer das Braunes (ou outro bairro qualquer), em Nova Friburgo, não se esqueça de olhar para o céu e as montanhas. Ouça o silêncio, respire o ar puro, valorize a tranquilidade. Pois é, meu caro amigo, eu sei que nem tudo o que reluz é ouro e perfeição é, quase sempre, um conceito inatingível, mas se não lutarmos pelos nossos sonhos, o que nos restará? Olhem o Rio…

Um ótimo fim de semana!

Parabéns prá você, Friburgo

O que escrever no aniversário de uma cidade que a gente gosta muito? Pois é, meu povo, Nova Friburgo está fazendo 199 anos, com algumas rugas, é verdade, mas um corpinho de 100. Anos, é claro! Lá ainda podemos sair com tranquilidade, curtir o frio seco das montanhas no inverno, morar cercado da Mata Atlântica, beber água da nascente, tomar banho de rio gelado e, principalmente, ser acolhido calorosamente pelos felizardos que moram o ano inteiro lá em cima.

Parabéns, Nova Friburgo. Parabéns, Friburguenses!

Fotos: Carlos Emerson Junior

Chuva!

Foto: Carlos Emerson Junior

Bastou subir para Nova Friburgo, para reencontrar amigos, natureza, paz e chuva. É, a chuva de verão que desapareceu do Rio já tem mais de doze dias, está por inteira aqui na Serra Fluminense, sempre à tardinha e baixando a temperatura para incríveis (para um carioca) 18º, um friozinho gostoso, bom para dormir ou até mesmo ir ao centro curtir o Carnaval (animadíssimo este ano). Pois é, o feriadão começou muito bem e a foto, feita da janela aqui de casa, mostra (ou melhor, não mostra, né?) o Pico do Caledônia encoberto pela chuva.