Não sei ler e escrever

Gravura: Sophie Lambert
E se eu escrevesse um romance, 
novela, um conto que seja?
Quem sabe, um poema!
Uma crônica serve? 
Ou você prefere um livro de receitas?
Pois é… Tudo para te agradar.
Mas, como você notou,
não leio ou escrevo mais nada
triste, alegre, feio ou bonito.
E sequer sei cozinhar…

Desculpe.

Carlos Emerson Junior 
(junho de 2020)

Elizabeth Bishop, um poema de amor

Nagy Gallery, New York

A Arte de Perder
de Elizabeth Bishop

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia.
Aceite, austero, A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subsequente

Da viagem não feita.
Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe.
Ah! E nem quero

Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas.
E um império Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles.
Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada.
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça

(Escreve!) muito sério

(Tradução de Paulo Henriques Britto)

oOo

Considerada uma das maiores poetas de língua inglesa, a norte-americana Elizabeth Bishop morou no Brasil durante 20 anos (Rio de Janeiro, Petrópolis e Ouro Preto), onde conheceu Lota de Macedo Soares, Dona Lota, sua grande paixão. O poema acima, no entanto, foi escrito quando sua primeira namorada após o suicídio de Dona Lota, a americana Alice Methfessel, avisou que iria deixá-la. Sua história é trágica, feliz, intensa, solitária e criativa. Lésbica, alcoólatra e asmática. Uma grande poeta. Dê um Google e veja como essa mulher foi interessante. Vale a pena.

A propósito, merecidamente Elizabeth Bishop será a escritora homenageada na próxima FLIP.

Nua

A mulher, nua, saiu à rua.
Estupefato, o guarda preceitua:
– dona, não tumultua,
na rua não pode andar nua!

O poeta vendo a cena, murmura:
– Meu Deus, nua, na rua,
que linda, até mesmo a Lua
diante dela, se insinua.

O caminhante para, olha e continua:
– será uma atriz que atua
completamente nua, na rua?

A mulher, indiferente, não recua.
Continua na rua, nua,
só, na sua.