Corvus oculum corvi non eruit

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Um corvo não arranca o olho de outro corvo, enquanto ambos são coniventes e convenientes, enquanto precisarem um do outro. A expressão em latim serve muito bem para o momento político que estamos vivendo nos últimos dias. Supremo, Congresso, Executivo, Judiciário, cheios de corvos unidos para manter a esbórnia existente desde o final da década de 90. Infelizmente, são muitos, frustrante. Corvus oculum corvi non eruit. Os romanos tinham razão.

Impeachment

Pois é, hoje em dia só se fala em impeachment, palavra inglesa que significa impedimento ou impugnação, processo contra autoridades do governo que, sem a menor noção, pisam feio na bola, esquecendo que estão ali para servir e não usufruir.

Quem vai ser “impugnado” esperneia, jura inocência, ameaça e fala em golpe mas, na hora H, para evitar uma humilhação, renuncia e sai de fininho do Alvorada com cara de bunda. Infelizmente, como as leis brasileiras são feitas por brasileiros, o cidadão deposto sabe que voltará triunfante daqui a 8 anos, com ficha limpa e tudo.

Podemos “impugnar” (“impedir”, vai saber) o Presidente da República, os governadores e prefeitos. Tudo bem, o ritual é complicado, longo e as chances de não tirar o cara (ou a cara) do cargo é enorme, mas é bom saber que nossa democracia permite esse tipo de ousadia.

Já se aqui existisse uma monarquia absolutista, por exemplo, perder a cabeça seria garantido. A nossa, é claro, em praça pública e transmissão para a TV. Em compensação, a única maneira conhecida e garantida de tirar a coroa desse tipo de rei é separando sua cabeça do resto do corpo, com coroa e tudo. Caramba, e ainda tem quem fale mal da democracia.

Mas esse papo todo quer dizer uma só coisa: se a Constituição, a Carta Magna, a Biblia, o Corão ou a Torá preveem o “impeachment”, ele pode ser considerado tudo, menos golpe. Aliás, basta dar uma olhada na história recente de nossa república para confirmar o que estou dizendo.

De fato, de 1990 até dezembro de 2015, foram protocolados no Congresso 132 pedidos de “impeachment”, distribuídos pelos seguintes presidentes:

Collor (1990–1992): 29
Itamar (1992–1994): 4
FHC (1995–2002): 17
Lula (2003–2010): 34
Dilma (2011–2015): 48

Apenas um pedido seguiu em frente e resultou no afastamento do então “Caçador de Marajás”.

Efetivamente golpes tiram presidentes, reis, ditadores e assemelhados de seus tronos. No Brasil foram apeados do poder os presidentes Washington Luiz (1930, por Getúlio Vargas), Getúlio Vargas (1945, pelos militares) e o João Goulart (1964, também pelos militares).

Getúlio acabou tirando sua própria vida em 1954, diante de graves acusações de corrupção e o homem da vassourinha, Jânio Quadros, renunciou em 1961, acossado pelas “forças ocultas”…

Não, decidamente, diante de tudo que está vindo à tona com as investigações da Lava-Jato, não acredito em golpe e acho que o pedido de “impeachment” é legítimo. Minha preocupação, agonia, desespero, é com o day after, seja ele qual for.

Quem assume é o vice do PMDB, certo? Mais ou menos, afinal a justiça abre cada vez mais seus braços e ninguém sabe o dia de amanhã. Já imaginaram se toma posse o Presidente da Câmara dos Deputados? Ou do Senado? Dá para entender o espanto de um dos ministros do STF:

“Meu Deus, essa é a nossa alternativa de poder?”

A questão, no fundo, é saber o que realmente queremos, se é que queremos mesmo alguma coisa. Com 65 anos de idade, acreditava piamente que em 2016 já estaria no futuro, afirmação que ouvi desde que nasci. Só que esqueceram de combinar com o resto do país e aqui estamos nós, metidos numa crise digna dos anos 50.

Ah, meus caros conterrâneos, aprendam com o escritor portugues Eça de Queirós, que viveu, vejam só, no século XIX: “políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo”.

E não é mesmo?

Foto: André Coelho (O Globo)

Golpe de mão

 

Falam de golpe.
Conspiram. Traçam planos. Ameaçam.
Procuram o inimigo até entre os amigos.
Juram lutar até a morte.

Falam de golpe.
Preparam-se para a guerra, apresentam suas baionetas.
“No passará”, gritam em uníssono, triunfantes.
Pior, arrogantes.

Falam de golpe.
Palavras vãs, bravatas perdidas ao léu.
Sequer meias verdades são.
Lembro dos versos do Joaquim Coelho,
poeta português que lutou em Angola,
viveu o horror das batalhas de verdade:

“E nós, combatentes e detestados,
estamos a comer o pó do sertão,
enquanto caminhamos sufocados
até ao derradeiro golpe de mão!”

Falam de golpe.
Estúpidos,
não tem nenhuma ideia do que estão falando!

Parasitas do Brasil

 

“As parasitas são plantas que se instalam em uma outra árvore e se alimentam de sua seiva. Como não conseguem nutrição suficiente por meio da própria fotossíntese, elas encravam suas raízes, conhecidas como haustórios, no caule ou no tronco de seu hospedeiro, atingindo o sistema vascular e retirando a seiva de que precisa para nutrir-se.”

Pois é, não tive como não pensar no Brasil quando vi essa amendoeira na Otavio Correa, aqui na Urca. Tomada por parasitas, sequer deu para perceber suas folhas e frutos originais. O Brasil está assim, loteado entre gente que pensa apenas em seu projeto político, sua independência financeira, sua ascensão social. Gente perigosa, agressiva, disposta a tudo para manter o status quo.

Parasitas tomaram conta do nosso país. Estamos sufocados, vendo o Brasil morrer um pouco a cada dia. Mas ainda há tempo. É hora de arregaçar as mangas. É hora de mudar. É hora de podar a erva daninha.

Foto: Carlos Emerson Junior

Ruínas

Fiquei em dúvida sobre qual a imagem mais apropriada para ilustrar esse comentário. As do desastre ambiental de Mariana seriam a escolha óbvia mas, em respeito às vítimas e enojado com a “passividade” quase criminosa de autoridades e empresas envolvidas, escolhi uma foto do meu arquivo pessoal, mostrando que atrás de prédios -ou instituições e pessoas – podem se esconder enormes ruinas (no caso, o prédio do antigo Cassino da Urca, aqui no Rio).

Em seu contundente artigo “O terremoto de todos os dias“, publicado no jornal El País, o jornalista e escritor Juan Árias, comentando a prisão de um senador da república (com minúsculas mesmo) e um “poderoso” banqueiro, deixa para nossa reflexão o seguinte:

“O Brasil está vivendo, de fato, um momento crítico e grave, difícil de definir e de contar dentro e fora do país. É uma mistura de terremoto político, cujo epicentro se encontra nos próprios fundamentos da República, e de esquizofrenia que impede a sociedade de entender se está vivendo na realidade ou no imaginário.

Um país que festejava há apenas dois ou três anos uma ascensão econômica e social inédita, inveja até de países desenvolvidos, que chegou a sonhar em sentar-se à mesa dos que dirigem os destinos do mundo, vive hoje uma espécie de miragem.

É como se, de repente, tivesse acordado de um sonho para tocar com a mão que a realidade crua e nua é muito diferente. O Brasil está gravemente doente politicamente.

E como no simbolismo da esquizofrenia, a sociedade se pergunta se a classe política vive na realidade, ou se se perdeu no marasmo de suas próprias alucinações e ilegalidades.”

Fico aqui cismado, tentando lembrar quantas crises políticas, morais e econômicas já devastaram o Brasil, acabando com os nossos sonhos de um futuro próspero. Desta vez a justiça está fazendo sua parte, colocando os canalhas na cadeia e provocando a indignação geral.

Meu maior medo, entretanto, é que o dano ao país e à nossa auto-estima tenha sido irreparável. Tomara que não.

Foto: Carlos Emerson Junior

 

Delete

Não tem jeito, a palavra veio junto com a revolução informática e se incorporou no nosso vocabulário de forma indelével, pelo menos até o próximo modismo: deletar é a palavra da vez e não se fala mais nisso!

Assim, aproveitando que o Natal já está aí e 2013 praticamente acabou, fiquei pensando em colocar o delete para funcionar e fazer uma lista de tudo o que não gostei, não entendi ou simplesmente ignorei. Afinal, a tecla DEL está bem ali, do lado direito dos nossos teclados, pronta para ser usada quando precisamos limpar o lixo.

Sem mais delongas, vamos à vaca fria (!). Por seus próprios e indiscutíveis méritos (incompetência, canalhice, descaso, arrogância, ignorância, má-fé, cafajestagem, roubalheira, cretinice e preguiça), coloquei no mural acima algumas personalidades, serviços e circunstâncias que merecem um curto e grosso delete.

Políticos, empresários, transportes públicos, educação, pobreza e desigualdade social, racismo, violência (em todas as suas formas), saúde pública, “presos políticos”, superfaturamento da Copa, a decadência do futebol brasileiro e até a rodovia RJ-116 (quem mora em Nova Friburgo sabe do que estou falando) tem seu lugar garantido. Ficou muita barbaridade de fora, mas acho que passei o espírito da coisa.

Decididamente, delete neles!