Fala mais alto!

Você está ouvindo pouco? Seu sono é agitado? Anda irritado com as pessoas, o cachorro e a patroa? Não quer saber de sexo? As palavras que você mais usa são “fala mais alto”, “heim?” e “não entendi nada, repete”? Está se sentido deprimido, cansado, com dores de cabeça, zumbido nos ouvidos. sem apetite? Nem tudo está perdido, meu amigo, acho que tenho uma boa notícia para você.

Seu problema é provocado pela poluição sonora urbana, aqueles barulhos cotidianos irritantes como serra elétrica em obras, aceleradas de motocicletas, automóveis com descarga aberta e som mais potente que baile funk nas comunidades, carga e descarga de caçambas de entulhos a qualquer hora do dia (e da noite), montagem de feiras livres de madrugada, torcidas organizadas, aos berros, assistindo jogos de futebol nos bares com tv (todos, né?), pessoas conversando aos berros no celular, som alto na casa do vizinho e, para quem morou na Urca, aproximação de aviões para aterrissar no porta-aviões Santos Dumont, digo, aeroporto dos anos 30, voando baixo, com as turbinas rugindo com força para tudo o que é lado e você rezando para o bicho não cair dentro de sua sala.

Ninguém merece, não é mesmo? Infelizmente, tenho também uma má notícia: a cura dessa doença social é complicada, talvez impossível, principalmente se você mora numa cidade entregue às baratas com quase dez milhões de vizinhos. Mas tem remédio, claro. Primeiro, saiba escolher bem o seu prefeito. Eu sei, é difícil, tem uma turma de incompetentes ou coisa pior agarrada ao poder de pai para filho desde que Cabral (o português) chegou a essas terras. Cobrar, reclamar, chamar a polícia, acionar o Bope e dar queixa ao Papa ajuda muito. O problema é que… Bom, como todo mundo no Rio acredita piamente que tem todos os direitos e nenhum dever, uns dois dias depois a zona volta a se restabelecer.

Um belo dia juntei as poluições sonora e ambiental com a óbvia insegurança, decadência econômica, favelização descontrolada, falência da administração pública e resolvi ir embora da cidade onde nasci, cresci e morei exatos 68 anos. Estava me sentindo infeliz, surdo, estressado, sem perspectiva alguma, com medo de levar um tiro e, para piorar, numa cidade muito cara. Juntei meu povo e fomos embora para a serra, continuar nossa jornada numa cidade com menos de 2% da população do Rio, ainda segura, ainda calma, ainda ordenada, onde você conhece seus vizinhos, não tem medo da polícia, de ser “premiado” com uma bala perdida e pode dormir à noite toda, tranquilo como um bebê.

Enfim, esse texto todo é para defender que o melhor remédio contra a poluição sonora urbana (e outras mazelas) é morar no interior. Sério! Não dá nem para explicar, só o fato de perceber que você não tem dez milhões de vizinhos já é um alívio enorme. Não seja preconceituoso, meu caro leitor, experimente. Vai que você gosta?

Realidade virtual

Você resolve assistir “As pontes de Toko-Ri”, um clássico de guerra de 1954. A ação se passa em um porta-aviões e seus caças a jato F9F2 Phanter, com a luxuosa participação de Willian Holden e Grace Kelly que, no ano seguinte viraria Grace de Mônaco.

Em determinado momento do filme, os jatos são liberados e, em formação, vão atacar a Coreia do Norte. Nesse momento, o aeroporto Santos Dumont, na verdade praticamente um porta aviões em terra firme, libera seus aviões pela Rota 2, aquela mesma que passa em cima dos bairros do Cosme Velho, Botafogo, Urca, Santa Tereza, Laranjeiras, Flamengo, Catete e Glória, para desespero dos moradores que não conseguem sequer ouvir seus pensamentos.

Mas ontem não, a sensação foi quase mágica. Para cada caça que decolava, tinha um Boeing ou Airbus passando em cima do telhado aqui de casa, com direito até a janelas vibrando. Um barato! Parecia que a guerra era aqui. Realidade virtual é isso e pela primeira vez não reclamei do barulho insuportável que aliás, coincidência ou não, voltou com toda a força enquanto escrevo essas linhas. Pois, é, a rota 2 ataca outra vez.

Ah sim, o filme é muito bom, ganhou um Oscar e vale conferir no site do Telecine Play.