A enxada

 

No meu jardim tem uma enxada. Encontrei por acaso, meio escondida na terra de onde sai uma enorme trepadeira que cresce e cobre as grades que nos separam da casa ao lado. Mas, constrangido confesso, não tenho a menor ideia do que fazer com ela.

Preparar a terra? Uma horta? Que nada, não levo jeito, nasci, cresci e envelheci no meio urbano, longe das lidas do campo. Brinquei em pracinhas de cimento e quintais onde ao invés de flores cultivavam automóveis.

Pois é, e agora, onde moro, tem uma enxada num canto que chamo de meu quintal. E nem é um quintal de verdade, mas tem uma pedra enorme, que vem lá do Pão de Açúcar e um monte de plantas pelas paredes. Samambaia, jibóia, manjericão, pimenteira, palmeiras, mais trepadeiras e até mesmo uma árvore que já chega na altura do segundo andar. Na semana passada tinha um ninho de passarinhos no alto do cerca.

Acho que vou deixar a enxada quieta no seu lugar. Talvez algum dia possa repetir o poeta Manoel de Barros e afirmar em alto e bom que “vou meio dementado e enxada às costas cavar no meu quintal vestígio dos meninos que fomos”.

Mesmo tendo sido um garoto de Copacabana.