A tempestade atípica

Reprodução: redes sociais

Mais uma tempestade provoca o caos no Rio, deixando desta vez um saldo macabro de dez mortes. Nem sei se tenho alguma coisa a mais para comentar depois de assistir aqui de Nova Friburgo um filme muito antigo: desde sempre chuvas caem forte na cidade no início do ano e, infelizmente, também desde sempre os cariocas nunca estão preparados para reagir.

Minha primeira inundação carioca foi a de 9 de janeiro de 1966, há 53 anos. Tinha 15 anos e fiquei aturdido com os números e a proporção da tragédia: 250 mortos, 1.000 feridos e mais de 50 mil desabrigados. Aulas, trabalhos, transportes, tudo parou. Faltava água, a luz era racionada algumas horas durante o dia e em todos os rostos se via a mesma dúvida: como permitimos tamanha tragédia?

Quem mais sofreu foi a população pobre, moradora de favelas, mangues, beira de rios e até mesmo do mar. Não existiam sirenes, defesa civil, previsão regional do tempo, um centro de operações de crise sequer. O rosto cruel do Rio de Janeiro, a desordem urbana, tinha colocado seu rosto de vez para quem quisesse (ou não) vê-la. Um horror.

Pois é. O tempo passou, outras chuvas levaram vidas, a cidade se conformou (outra característica imperdoável) que seria sempre assim, eram as chuvas de março fechando o verão, uma glamurização absurda de uma situação perfeitamente contornável se tivéssemos juízo e um mínimo senso de civilidade. Mas como, se acreditamos piamente que todo o carioca é descolado, malandro, “experto”? Vão perguntar para os bombeiros se eles são descolados?

Essa segunda tempestade de 2019 como sempre deixou um número enorme de desabrigados, destruiu ruas, casas, praças, escolas, inundou hospitais, fábricas e, entre outras desgraças, derrubou um novo trecho da caríssima ciclovia que o Eduardo Paes fez na Av. Niemeyer, pode ser chamada de tudo menos de “atípica”, como teve a cara de pau de afirmar o atual prefeito, Sua Excelência (?) o Bispo Marcelo Crivella.

É claro que a culpa não é só dele. O problema se agrava quando o estado (e a sociedade) não veem o crescimento urbano desordenado, a ocupação irregular do solo, a destruição de matas e o despejo do lixo nos rios, arroios e mananciais. Algum prefeito tomou alguma medida concreta nos últimos, sei lá, 50 anos? É evidente que não! Prefeito gosta é de inaugurar praças, parques, aparelhos de ginśtica, tudo perfumaria. Obras de saneamento, de retificação dos cursos dos rios, contenção de encostas e sistemas de alerta e prevenção de enchentes e desabamentos nem pensar. Ninguém vê. Não dá voto!

E isso, infelizmente, vale para qualquer cidade, inclusive minha querida Nova Friburgo, outra vítima dessa política canalha, que troca votos por brinquedos, como se todos os eleitores fossem aculturados ou débeis mentais. Não, meus caros, a tragédia “atípica” só vai ter fim quando mudarmos nossa mentalidade, cobrarmos, participarmos e, principalmente, pararmos de acreditar que nosso futuro é um carguinho na prefeitura da vez.

Hoje, somos todos irresponsáveis!

Saúde!

 

copacabana 1940

Esse ‘causo’ aconteceu no longínquo e perdido ano de 2015, lá na ex-cidade maravilhosa.

Caminhada no final da tarde na praia, na direção do Posto Seis. Domingo, uma multidão saindo da areia na direção das estações do Metrô e pontos de ônibus e uma outra chegando para tomar um vento e ver as modas, como se falava antigamente, cruzavam animadamente o calçadão, mal dando espaço para andar. E não é figura de linguagem não!

Segurei a mão da minha mulher e lá fomos nós seguindo o fluxo que ia para o sul e desviando do contra fluxo rumo norte. Foi quando meu nariz começou a coçar. Aliás, quem tem rinite sabe o que estou falando. Sem dar tempo sequer de fungar, soltei um espirro de alívio, em alto e bom som que, como efeito colateral, assustou quem ia e vinha pela via. Minha mulher me olhou muito séria, com os olhos arregalados:

– Cara, que susto que você me deu! Precisava espirrar tão alto? Você tremeu tanto que pensei que tinha sido atingindo por uma bala perdida! Não faça mais isso, todo mundo se assustou. Só esse ano mais de 36 pessoas já foram atingidas por balas perdidas e dois casos foram aqui em Copa. Toma juízo!

Para meu espanto, uma pequena roda se abrira e as pessoas, me olhando com curiosidade, pareciam concordar com a bronca. Tá bom, espirrei alto, talvez herança dos espirros escandalosos que meu pai dava, sempre no meio da rua, que me levavam às gargalhadas. Só esqueci que isso foi há mais de 50 anos, quando o Rio ainda era uma cidade risonha e franca, sem balas perdidas, por óbvio.

Bons tempos.

 

Sem saída

Foto: Carlos Emerson Jr.

O Rio de Janeiro não é uma cidade maravilhosa, é uma paisagem maravilhosa para uma cidade” (Elizabeth Bishop)

Até quando vamos nos iludir? Quantas vidas mais a cidade levará para alimentar suas mazelas, sua malandragem, sua incivilidade? Que me perdoem os cariocas – meus conterrâneos – mas grupo de extermínio agindo em pleno centro,nas barbas das tropas do Exército, é o fim do mundo. Aliás, o fim de uma cidade que um dia foi cantada como a maravilhosa. Perdeu a graça, o viço, o senso e o amor de seus filhos. Sinceramente? Não acredito mais em alguma saída.

Que pelo menos identifiquem, prendam e punam os responsáveis pelo bárbaro assassinato no Estácio, sejam eles quem forem, estejam onde estiverem, tenham o nome que for. Já toleramos facções do tráfico, milícias, corruptos, assaltantes, pivetes e canalhas de todos os estirpes, engravatados ou não. Permitir a ação impune de grupos de extermínios é acabar com o pouco de ar que ainda se respira no Rio, concordar com o assassinato de qualquer um que incomode os donos do poder. É deletar a democracia. É voltar para o tempo dos coronéis.

Meus pêsames e desculpas aos amigos e familiares de Marielle Franco. Meus pêsames à população carioca.

A ponta da baioneta

Sentiu alguma coisa espetando suas costas com força. Tentou se afastar mas o incômodo persistiu, empurrando-o para a frente. Deu um impulso, girou o corpo para trás e, com horror e espanto, viu a baioneta, brilhante e mortal, cortando o ar em sua direção. O movimento seguinte foi rápido e nebuloso. Com o abdômen aberto, de uma ponta a outra, ajoelhou no chão. Curiosamente, não sentia dor. A visão turvou, uma fraqueza enorme fez seu corpo desabar de vez. Só conseguiu balbuciar a clássica expressão:

– O que foi que eu fiz?

Pois é… O assunto é sério e nosso personagem poderia muito bem ter sido vítima de uma baioneta perdida, principalmente se ele estivesse em um campo de batalha da Primeira Guerra Mundial, nas Guerras Napoleônicas ou até mesmo na Guerra do Paraguai. No calor da luta, no meio da soldadesca, ninguém tem sangue frio suficiente para procurar o inimigo. Ou racionalidade.

Até onde sei, hoje em dia nenhum exército faz a famosa “carga de baionetas”, aquele ataque – geralmente desesperado – onde a tropa avança destemidamente em direção ao inimigo, com as baionetas em riste na ponta dos fuzis, prontas para cortar o pescoço de quem aparecer pela frente. Uma carnificina que só os filmes de guerra antigos adoravam!

Mas os tempos mudaram, não é mesmo? As guerras modernas estão cada vez mais tecnológicas, dependendo de drones, mísseis inteligentes, satélites, blindados robôs, miras laser e mais uma infinidade de aparatos que, com certeza, ainda nem ouvimos falar. É claro que estou pensando nos países do primeiro mundo, donos de arsenais poderosos o suficiente para destruir a vida no planeta em questão de horas. Ou menos!

Bom, toda essa introdução (o quê, ainda vem texto por aí?) serve para mostrar a que ponto chegamos na mui heroica e leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Não estamos mais em guerra com o Paraguai, o Uruguai conseguiu sua independência e a Argentina perdeu o interesse nas provocações. Aliás, chegamos a um ponto tal que ninguém sequer pensa em perder tempo, dinheiro e vidas declarando guerra ao Brasil.

Não, nossa guerra é mais cruel, é interna. E nem é uma guerra civil, como a espanhola na década de 30 ou angolana, que durou de 1975 até 2002. No Rio, onde a situação está completamente fora de controle, sequer as forças armadas são respeitadas. A bandidagem, muito bem armada e orientada, parece ter um serviço de inteligência melhor do que o da polícia. Aliás, a fuga da favela da Rocinha do inimigo público número 1 da vez, furando um cerco feito pelas forças armadas e PM foi simplesmente uma vergonha. Será que já estão apurando quem “ajudou”?

Duvido.

Quem sofre com essa “guerra” é, sem dúvida, a população. Toda ela. A morte da turista espanhola chocou o mundo e, não duvidem, manchou indelevelmente a imagem já muito manchada da cidade. O assassinato do coronel comandante do 3º batalhão da polícia militar, em plena rua Hermengarda, no Méier, com 17 tiros, em plena manhã de uma quinta-feira, foi de um absurdo tão grande que me deu a sensação de estar em Aleppo, no meio de um daqueles combates ferozes. Ah, tá, lá a guerra é civil, aqui não.

A lista de mortes revoltantes, que era mensal, agora é diária. A população se retrai e se defende como pode, mudando horários, hábitos ou indo embora da cidade. O que vejo, sinto e acredito é que a guerra contra o tráfico foi perdida e nem foi hoje. Foi perdida quando favelas se expandiram e simplesmente fizemos cara de paisagem. Foi perdida quando trocamos saneamento básico por teleféricos. Quando glamorizamos a miséria como parte da “cultura carioca”. Quando colocamos serviços de gás, luz, telefone, internet e transporte público nas mãos de milicianos e traficantes. Quando esquecemos da educação e da saúde. E por aí vai.

Há quantos anos se combate o tráfico? Segundo a própria Polícia Militar, desde o final dos anos 70. Quarenta e muitos anos depois, milhares de vidas perdidas, milhões (ou bilhões) de reais torrados e nosso futuro jogado no lixo. Caramba, quem está lucrando com essa batalha interminável, cruel, sem sentido, sem bandeiras? Ainda não sabemos sequer quem compra e fornece drogas e o armamento pesado para a bandidagem. Ou será que, simplesmente, não ousamos (ou podemos) falar?

Enfim, chegamos a um ponto que a luta é por território, dinheiro. Gente muito poderosa está por trás dessa “indústria”, gente do topo da pirâmide. Ganha muito, com certeza. Li em algum lugar que com a derrocada das Farcs colombianas, a exportação da droga para os Estados Unidos e Europa está se fazendo pelo Brasil. Com um substancial aumento dos lucros, é óbvio. Gente, fico imaginando os valores que uma “Lava-Jato” do tráfico não revelaria. Os nomes. As empresas. As ONGs. Os militares. A justiça. A mídia. O executivo, o legislativo, a puta que pariu!

A ponta da baioneta está espetada nas costas da população, seja de que classe social for (balas perdidas não escolhem rostos). Temos plena noção de que tudo está errado mas ficamos em silêncio, inertes, paralisados pelo medo. Durante uma carga de baioneta, podemos correr, lutar, talvez até nos render. O problema é que a guerra do Rio não tem regras e todos somos alemães, inimigos de qualquer um. Que pena. Qualquer dia desses o Rio acaba. Ou se transforma em uma Faixa de Gaza tropical…

A cidade engana

enseada de botafogo
Foto: Carlos Emerson Junior

 

Vista assim, de longe, a cidade engana. Ou melhor, esse ângulo exuberante irremediavelmente nos leva para longe da realidade. Cidades podem ser maravilhosas em prosa e versos, em fotos e filmes. No entanto, será que resistem a um olhar bem atento? Um avião em baixa altitude sobrevoando quatro bairros residenciais antes de pousar, rugindo suas turbinas sem o menor pudor. As águas imundas e fétidas da enseada tão bonita. A crescente e desamparada população de rua, usando barcos abandonados e barracas nas praias para morar. A insegurança sempre presente, em qualquer lugar e a qualquer hora. Os ladrões que tomaram o poder e levaram tudo o que quiseram e puderam. Ah, meus caros, a cidade engana e como. E nós, reféns de lembranças de tempos melhores, apenas olhamos e murmuramos: pois é…

Foto: Cejunior

Canal do Mangue

Foto: Carlos Emerson Junior

As cidades tem seus recantos e encantos, mesmo quando cabem apenas na lente de um smartphone. Ou até mesmo quando você erra a regulagem, treme ou pisca e a imagem mostra alguma coisa que você não viu, mas algum dia imaginou. Pois é, essas árvores (sempre elas) estão na Avenida Francisco Bicalho, no centro do Rio, margeando o mal afamado e mal cheiroso Canal do Mangue. A luz da tarde de outono ajuda a compor ou talvez sonhar com uma cidade civilizada.

Bobagem, não é mesmo?

Assalto!

A carioca termina o plantão no centro cirúrgico de um hospital na Baixada Fluminense, no domingo, já bem noitinha. Ela mesma, recém saída de uma cirurgia, não pode guiar, mas conta com a ajuda inestimável do namorado, já a postos no estacionamento. O trajeto para casa é simples, trânsito bom, ruas vazias, todo mundo em casa vendo o Fantástico.

Todo mundo não. No meio do caminho, ou melhor, na entrada da Avenida Brasil, um automóvel toma a frente e para repentinamente, fechando o trânsito. De dentro saem quatro homens empunhando fuzis de assalto e mandam o casal entregar o carro, carteira, bolsa e celulares. Um deles toma a direção e desaparecem na escuridão, na direção da zona norte.

Os dois, atônitos, correm para uma birosca próxima. Uma patrulha da PM se aproxima, mas os policiais saem disparam a pé pela avenida para impedir um outro assalto alguns metros atrás. Uma jovem, penalizada, encosta seu carro e os leva até a delegacia de Ricardo de Albuquerque, onde conseguem registrar a queixa e avisar a família. Na atual conjuntura do Rio, todos respiram aliviados: estão inteiros, vivos.

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Pois é, a narrativa acima infelizmente não é ficção, aconteceu com minha filha mais velha no domingo passado. Estavamos entrando em casa, por volta das dez da noite quando recebemos sua ligação, pedindo que acionássemos a seguradora. Um susto enorme, sensação de impotência e alívio foram os sentimentos mais fortes. Como assim, nossa filha virou estatística?

Já tem algum tempo que parei de me iludir e deixei de acreditar que o Rio de Janeiro tem alguma saída. Não tem, meus caros, a cidade foi perdida pelo estado. Áreas enormes, geralmente encravadas em favelas, pertencem à bandidagem e ali ninguém entra. A prefeitura finge que governa, o governo do estado finge que dá segurança, o governo federal faz cara de paisagem e a população, acuada, tenta dar um “jeitinho” para conviver diante de descalabro, abandono e violência.

Não vou analisar as causas da violência. A situação chegou a um ponto que, todo santo dia um especialista na mídia explica suas causas. Não vou culpar A, B ou C por esse estado de coisas. Qualquer carioca sabe muito bem quem são os responsáveis, por ação e omissão. Não vou criticar a pobreza, educação, a justiça, a democracia, o capitalismo, o universo ou os deuses. Pura perda de tempo, ninguém liga.

Mas um belo dia, vamos perceber que estamos pagando impostos e pedágios para os bandidos e não mais às autoridades constituídas. Corremos o risco de virar uma cidade sem lei, bairros cercados por muros blindados, controlada por milícias, isolada do resto do Brasil e do Estado do Rio, ocupada por tropas e em permanente estado de guerra.

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Meu muito obrigado a todos que foram solidários com minha filha e seu namorado. Vocês são uma luz nessa escuridão que tomou conta do Rio de Janeiro.

Figueiredo com Copacabana

Atravessou a Avenida Copacabana apesar do sinal fechado, fora da faixa de pedestres, desviando de carros, ônibus e caminhões a medida que avançavam. Chegou, sabe-se lá como, do outro lado, subiu na calçada, parou, respirou fundo e foi atropelado sem dó por uma bicicleta de entregas, caindo junto com o ciclista pesadamente no chão. Pensa que o entregador ajudou? Que nada, xingou o coitado de tudo o que é nome, arrumou a magrela e seguiu em frente. Os pedestres, nem um pouco solidários, olhavam de lado, certamente considerando um absurdo um sujeito cruzar a avenida daquela forma e não prestar a atenção em uma reles bicicleta.

Revoltado, dolorido e humilhado, lembrou que tinha horário na clínica e estava atrasado. Levantou e foi correndo até a esquina da Figueiredo de Magalhães. Já tinha colocado o pé no asfalto para repetir a façanha de minutos atrás, mas o juízo falou mais alto e resolveu esperar o sinal verde. Ficou ali, quieto, olhando para os carros que não paravam de passar. De repente, o sinal abriu. Checou a ciclovia e, pela faixa de pedestres, disparou para o outro lado da rua. Nem chegou na metade. Foi atingido em cheio por uma viatura de uma repartição do governo do estado que, achando-se uma autoridade, resolveu passar no sinal fechado. Deu sorte! Logo atrás vinha uma ambulância dos bombeiros que parou para prestar os primeiros socorros. Tirando a perna quebrada e a consulta perdida, até que ficou barato. Decididamente não era seu dia.

Fazer o quê, não é mesmo?

Paisagem

A escritora norte-americana Elizabeth Bishop uma vez afirmou que o “Rio de Janeiro não é uma cidade maravilhosa, é uma paisagem maravilhosa para uma cidade.” Tem razão, ainda mais nos dias de hoje. Em sua homenagem, aí vão algumas tomadas da Enseada de Botafogo e o seu Corcovado com o Cristo Redentor, todas feitas na murada da Urca.

Fotos: Carlos Emerson Junior