Figueiredo com Copacabana

Atravessou a Avenida Copacabana apesar do sinal fechado, fora da faixa de pedestres, desviando de carros, ônibus e caminhões a medida que avançavam. Chegou, sabe-se lá como, do outro lado, subiu na calçada, parou, respirou fundo e foi atropelado sem dó por uma bicicleta de entregas, caindo junto com o ciclista pesadamente no chão. Pensa que o entregador ajudou? Que nada, xingou o coitado de tudo o que é nome, arrumou a magrela e seguiu em frente. Os pedestres, nem um pouco solidários, olhavam de lado, certamente considerando um absurdo um sujeito cruzar a avenida daquela forma e não prestar a atenção em uma reles bicicleta.

Revoltado, dolorido e humilhado, lembrou que tinha horário na clínica e estava atrasado. Levantou e foi correndo até a esquina da Figueiredo de Magalhães. Já tinha colocado o pé no asfalto para repetir a façanha de minutos atrás, mas o juízo falou mais alto e resolveu esperar o sinal verde. Ficou ali, quieto, olhando para os carros que não paravam de passar. De repente, o sinal abriu. Checou a ciclovia e, pela faixa de pedestres, disparou para o outro lado da rua. Nem chegou na metade. Foi atingido em cheio por uma viatura de uma repartição do governo do estado que, achando-se uma autoridade, resolveu passar no sinal fechado. Deu sorte! Logo atrás vinha uma ambulância dos bombeiros que parou para prestar os primeiros socorros. Tirando a perna quebrada e a consulta perdida, até que ficou barato. Decididamente não era seu dia.

Fazer o quê, não é mesmo?

Paisagem

A escritora norte-americana Elizabeth Bishop uma vez afirmou que o “Rio de Janeiro não é uma cidade maravilhosa, é uma paisagem maravilhosa para uma cidade.” Tem razão, ainda mais nos dias de hoje. Em sua homenagem, aí vão algumas tomadas da Enseada de Botafogo e o seu Corcovado com o Cristo Redentor, todas feitas na murada da Urca.

Fotos: Carlos Emerson Junior

Bondes

Foto: Carlheinz Hahmann

“No depósito da CTC, em Triagem, o funcionário vem com um galão de gasolina, espalha o combustível sobre os bancos de madeira do bonde e risca um fósforo. Em minutos, um inferno de labaredas devora toda a peroba do campo que formava a estrutura do veículo, deixando no chão apenas cinzas e partes metálicas enegrecidas.

A cena brutal, de desperdício ímpar, aconteceu ao longo de 1964 e 1965, os últimos dois anos de Carlos Lacerda como governador da Guanabara. O sistema de bondes do Rio, que já fora considerado pioneiro e um dos maiores do mundo, vinha sendo desativado desde o início daquela década. Antes operada por empresas privadas como a Light, a Cia. Ferro-Carril do Jardim Botânico e a Ferro-Carril Carioca, a rede passara ao controle do estado. Vistos como um entrave para o trânsito e o progresso, os velhos veículos foram aposentados na marra após seis décadas de serviços prestados. A ordem era substituí-los por uma frota de trolley-bus — ônibus elétricos importados da Itália — e, paulatinamente, sepultar seus trilhos sob mantas de asfalto. (O Globo, 8/6/2016)

oOo

O que veio depois é história. O ônibus elétrico foi um fiasco e, para não jogar mais dinheiro no lixo, acabaram adaptados para rodar com motores diesel convencionais, outra burrada. Depois dessa mixórdia os antigos lotações viraram empresas de ônibus, dividiram a cidade entre si, as prefeituras se omitiram ou coisa pior e, voilá, o Rio de Janeiro hoje tem um dos piores serviços de transporte público do mundo. E não é exagero, não, qualquer carioca aplaudiria minhas palavras de pé!

A nostálgica matéria do jornalista Jason Vogel, “Antigos bondes do Rio de Janeiro rodam nos Estados Unidos”, publicado no O Globo de hoje, conta a odisséia de alguns dos 12 sobreviventes do incêndio patrocinado pela diretoria da extinta empresa estatal CTC-GB que, de uma vez só, consumiu toda a frota. Enquanto lá fora esses bondes, em excelente estado de conservação e alguns com mais de 100 anos, ainda circulam em cidades, parques e museus ferroviários, aqui no Rio não restou um único exemplar para mostrarmos aos nossos netos.

Como sempre, por estupidez, arrogância, pouco caso ou má fé, colocamos fogo em nossa própria História…

Carioquices

 

Parece mentira, mas o ônibus que encostou no ponto era um daqueles novos, raríssimos, com piso baixo, motor traseiro, rampa para deficientes, suspensão pneumática, ar condicionado e, pasmem, motorista e cobrador educadíssimos. Não, não é pegadinha de primeiro de abril coisa nenhuma, acabou de acontecer.

No primeiro ponto de Ipanema uma senhora muito elegante faz sinal. O coletivo para, encosta, abre as portas, ela entra e com um enorme sorriso agradece:

– Ainda bem que o senhor veio com esse ônibus sem degraus. Meu vestido é muito justo para subir as escadas de um carro comum. Valeu!

Aí olhei, claro. Aliás, não só eu mas também os passageiros, o motorista e até a cobradora. Muito distinta, realmente usava uma roupa justa (com bom gosto e na medida certa) que realçava seu perfil esguio, completamente incompatível com os busões montados em chassis de caminhões, padrão aqui no Rio.

O motorista sorriu e só arrancou quando a passageira sentou. Pois é, como dizia o profeta, “gentileza gera gentileza”.

oOo

Tinha que ir do local A para o local B. Pensou em pegar uma condução mas a manhã estava tão agradável, um ventinho de sudoeste dando um refresco no mormaço que resolveu ir a pé mesmo, pela praia. Dito e feito, dobrou a primeira rua à direita e se mandou para o calçadão.

– Good morning, sir. There would be interested in doing a stand up paddle? The day may be gray but the sea is great. Uau, rimei em english!

Olhou desconfiado para os lados e percebeu que era com ele mesmo. Como assim?

– Oi, cara. Obrigado mas no mar eu prefiro é nadar mesmo. Ah, e não precisa gastar o inglês, somos conterrâneos.

– Caramba, é mesmo, desculpe, pensei mesmo que fosse turista. Deve ser sua roupa, parece coisa de gringo.

– Roupa de gringo? Só porque estou de bermudão florido, havaianas e camiseta de marca? Ô meu, estou trabalhando, acabei de sair de uma reunião e estou indo para outra. Isso aqui é roupa social, cara!

– Pensando bem, faz sentido. Pior sou eu que estou aqui, na areia, trabalhando só de de calção… Bom, tudo bem, quando quiser dar umas remadas, estamos às ordens. Boa reunião.

– Tá anotado. Bom trabalho prá você também!

oOo

Todo o dia é a mesma coisa. Basta parar no sinal fechado ali da Duvivier que o cidadão desprovido de bens não perde tempo e chega choramingando:

– Ô dotô, tô com fome, me arranja um dinheirinho prá comer.

– Eu não sou “dotô” e só tenho 4 reais no bolso prá pegar o ônibus. Não dá prá ajudar.

– Puxa vida dotô, o senhor só anda duro, qualquer hora dessas vou perder o ponto pro senhor.

– Mas você é abusado, heim? E o que posso fazer por você? Dinheiro eu não tenho e nem adianta pedir cigarro, não fumo.

– Celular velho! Será que o senhor não teria um prá me arrumar? Aí eu vendo e de repente consigo até uma comida decente.

– Celular, né? Bom, tem um encostado em casa. Tiro o chip e amanhã trago prá você.

– Vai tirar o chip? Faz isso não, dotô, deixa o chip e coloca um cinquentinha de crédito. Assim eu aproveito para fazer umas ligações pros parentes e resolver umas paradas aí.

– Celular, chip e recarga. Não está precisando de uma secretária para fazer as ligações?

– Bom, se o dotô quiser ir pro céu direto, pode mandar a moça. Mas tem que ser novinha e bonita, combinado?

Foto: Carlos Emerson Jr.

Passeando

A gente sai com a cachorra para passear. Atravessa a rua, faz uma paradinha para o xixi no canteiro do prédio da frente, entra na rua onde montam a feira aos domingos, passa em frente a casa do labrador velhinho, que nem liga mais para quem perturba seu sono e, de repente, dá de cara com um jardim, atrás das grades (estamos no Rio de Janeiro, uai!) de uma bela casa, com essa delicadeza em sua entrada que me remete ao interior.

Se bem que, de uma certa forma, a Urca é uma espécie de interior, não é mesmo?

Escadaria Selarón

Em 1990, o artista plástico Jorge Selarón começou a revestir a escadaria que leva ao convento de Santa Teresa com um mosaico de ladrilhos de cerâmica nas cores verde, amarela, azul e branca. São 215 degraus ao longo de 125m, cobertos pelo chileno às custas do dinheiro de seu próprio bolso, o qual arrecadava por meio da venda de quadros.

A escadaria de 215 degraus e 125 metros de comprimento, ligando os bairros boêmios da Lapa e Santa Tereza, no Rio de Janeiro, foi tombada pela prefeitura em 2005. Vale o passeio e informações úteis podem ser encontradas no site da Secretaria Estadual de Cultura.

Fotos: Carlos Emerson Jr.

Pedras Portuguesas

Publicado no Overmundo

O pessoal mais antigo conhece: esse desenho da calçada da Rua Barão de Ipanema, em Copacabana, é, ou era, a cara do bairro e estava presente em todas as ruas internas, inclusive na avenida N.S. de Copacabana e rua Barata Ribeiro. As famosas ondas só na praia, tanto as de verdade, como as de pedras portuguesas.

Além de dar uma cara para cidade, uniformizando seu tipo de piso, o calçamento com pedras portuguesas é robusto, durável e sustentável, já que as pedrinhas podem ser reutilizadas. E tem mais: é fácil de lavar e absorve com facilidade as águas das chuvas. Numa cidade como o Rio, isso é fundamental.

O grande problema mesmo é a falta de conservação. Tirando o calçadão da orla, projetado por Burle Marx , considerado o maior mosaico do mundo e devidamente tombado pelo patrimônio histórico e cultural, as calçadas nas ruas internas são de responsabilidade dos moradores. E nem sempre encontramos condomínios cuidadosos como o da foto.

Para piorar, lentamente as pedrinhas são trocadas por cimento, destruídas pelo estacionamento de carros nas calçadas (um péssimo hábito carioca) e desfiguradas por jardineiras, jardins e fradinhos, instalados para impedir justamente que automóveis parem sobre as calçadas!

A prefeitura se defende alegando que falta de calceteiros, o profissional especializado nesse tipo de serviço. E justifica o uso do cimento para melhorar a segurança dos idosos. Sei não, quem já esteve em Lisboa sabe que suas calçadas de pedras portuguesas parecem um tapete. Será que não temos capacidade de formar esses profissionais ou simplesmente estamos nos nivelando por baixo, como tudo neste Brasil?

Mas mesmo lá na terrinha a situação não está nada boa. A Assembleia Municipal de Lisboa aprovou o Plano de Acessibilidade Pedonal prevendo, entre outras medidas, a substituição das calçadas portuguesas (como são chamadas por lá) por um piso mais seguro e confortável, até 2017. O assunto é polêmico, mas parece ser irreversível.

A identidade cultural de uma cidade passa pelo seu mobiliário urbano. As pedras portuguesas são a nossa herança lusófona, um cartão postal do Rio, reconhecido no mundo inteiro. Não dá para abrir mão desse patrimônio. Ou esquecer que ele está sempre lá.

Foto: Carlos Emerson Junior